Foi pros vinagres! Foi pra Folha!

VINAGRE – Uma antologia de poetas neobarracos está disponível para baixar e virou notícia na Rolha de S. Paulo – vários dos participantes dessa antologia feita no calor da hora estiveram também nas páginas da Babel Poética no painel Poesia na Era Lula, uma época marcada pela crítica social na poesia, pela irreverência e, agora, também pela rebeldia

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/06/1296721-antologia-de-poemas-inspirados-por-protestos-no-brasil-e-colocada-na-web-leia.shtml?fb_action_ids=10200177374417295&fb_action_types=og.recommends&fb_source=timeline_og&action_object_map=%7B%2210200177374417295%22%3A611204232232085%7D&action_type_map=%7B%2210200177374417295%22%3A%22og.recommends%22%7D&action_ref_map=%5B%5D

Leia no issuu a edição 5 de Babel – Revista de Poesia, Tradução e Crítica, publicada em 2002.

SUMÁRIO
EDITORIAL 5 Murilo Mendes, traduzido por Denise Durante e Paulo de Toledo 6 POESIA HOJE BRASIL Frederico Barbosa 11 Donizete Galvão 13 Elson Fróes 14 Fernando Fábio Fiorese Furtado 18 Cristiano Moreira 23 Sérgio Nazar David 26 Contador Borges 29 Amir Brito Cadôr 31 João Filho 36 Marco Aurélio Cremasco 37 Prisca Agustoni 43 Paulo de Toledo 64 Elaine Pauvolid 80 Marcelo Ariel 81 Maria Esther Maciel 85 Ricardo Schmitt Carvalho 87 André Luiz Pinto 88 Mário Bortolotto 89 Luiz Roberto Guedes 90 Renato Rezende 108 RESENHA – Milton Hatoum 19 POESIA BRASIL Sérgio Rubens Sossélla 7 Aricy Curvello 32 ENSAIO Joca Wolff 45 Susana Scramin 109 Ana Porrúa 116 ENTREVISTA Raúl Antelo por Ademir Demarchi 65 Daniel Muxica por Mauro Faccioni Filho 99 POESIA TRADUÇÃO Leonyd Martinov, por Marco Aurelio Cremasco 50 Carl Sandburg, por Marco Aurelio Cremasco 53 Peter Greenaway, Os Fantásticos Livros de Próspero, tradução e apresentação de Maria Esther Maciel 57 Raymond Carver, por Rodrigo Lacerda 73 Jeffrey Mc Daniel, por Mauro Faccioni Filho 91 Hans Magnus Enzensberger, por amir brito 115

 

O PARAÍSO HIPÓCRITA DE ROBERT LOWELL

Robert_Lowell_Simon_Fieldhouse1

[imagem de Simon Fieldhouse]

Na edição 3 de BABEL – Revista de Poesia, Tradução e Crítica, a poesia de Robert Lowell

O PARAÍSO HIPÓCRITA DE ROBERT LOWELL

 Marco Aurélio Cremasco

school of hypocrites

 

talk with your kid about friendship

talk with your kid about respect

talk with your kid about self-esteem

talk with your kid about compassion

and send your teen to war

 

marco cremasco

escola de hipócritas

 

converse com seu guri sobre amizade

converse com seu guri sobre respeito

converse com seu guri sobre auto-estima

converse com seu guri sobre compaixão

e mande seu adolescente para a guerra

 

Robert Lowell é tido por muitos como a voz mais poderosa e original da poesia norte-americana da segunda metade do séc. XX. Sua importância está configurada na revolta, no ser-contra necessário à força motriz para provocar novos paradigmas. Os modelos impulsionados por Lowell não se concentraram tão-somente na forma, da qual foi um exímio cultivador, mas no conteúdo através do qual ele apresentou e detonou a hipocrisia da clássica família puritana norte-americana. Esta, por sua vez, caracterizava-se (ou se caracteriza?) por calcar-se nos princípios da virtude do trabalho duro, limpo, contudo mascarando a violência e a aspereza para sustentar-se enquanto tradição,1 bem como vangloria-se do poderio dos Estados Unidos sobre outras nações, encobrindo a violência interna. Lowell foi atento a isso tudo, transformando-se em crítico do próprio umbigo.

Lowell brotou dos mamilos suculentos de uma família tradicional, cujo sonho era o de tornar-se parte da realeza inglesa. Basta atentar para o nome do poeta: Robert Trail Spencer Lowell IV. Mas sua rebelião teve início contra o próprio algarismo do nome, para condensá-lo em Cal, apelido que o acompanharia na vida, nas cartas aos amigos2. Cal, de Calígula, dada a sua crueldade infantil, foi rótulo perpetuado na garrafas, casamentos, sanatórios. Porém, Cal Lowell foi muito mais longe do que os limites que o país, os pais, a bebida e a loucura impuseram à sua criação.

Filho de Robert Trail Spencer Lowell III, um oficial da marinha norte-americana, e de Charlotte Winslow Lowell, Robert Cal Lowell, o IV, nasceu em Boston no dia primeiro de março de 1917.1 Além de ter vindo de uma das mais antigas e tradicionais famílias da Nova Inglaterra, Cal teve como parentes os poetas Amy Lowell e James Russel Lowell.2 James é visto como o porta-voz dos sentimentos e atitudes da Nova Inglaterra,3 aquele que celebra as virtudes do contato direto do homem com o solo ou que canta a grandeza de Harvard. Tudo o que Cal Lowell não sonharia para si.

Robert Lowell foi “educado” em colégios particulares de Boston e depois na escola preparatória de St. Mark, de 1930 a 1935. Reza a lenda que Lowell começou a escrever poemas nessa escola, influenciado pelo professor e poeta Richard Eberhart. Após St. Mark e seguindo a tradição dos varões Lowell, Cal foi para Harvard com a intenção de cursar literatura inglesa. Ao contrário de James, Lowell abandonou Harvard dali a dois anos, quem sabe impulsionado por seu encontro com o poeta e, principalmente, crítico Allen Tate. Cal, em 1937, rumou para o Kenyon College, em Ohio, para estudar com o poeta John Crowe Ransom. A influência da dupla Tate & Ransom foi marcante no destino poético de Cal, pois a obra desses poetas está associada ao estilo formal adotado pelo grupo Fugitive, cuja gênese remonta a 1922 com a publicação da revista Fugitive, destinada à discussão sobre poesia e crítica poética. A forma tradicional de Ransom, o soneto entre outros, influenciou Lowell principalmente nos seus primeiros livros.

Em 1940, Lowell graduou-se com summa cum laude em Estudos Clássicos. Nesse mesmo ano casou-se com a escritora Jean Stafford, bem como converteu-se ao catolicismo romano.1 A sua conversão pode ser vista como sinal de rebeldia contra a herança religiosa de sua família. Cal e Jean, em 1941, foram para Lousiana e Cal encontrou-se com o poeta Robert Penn Warren, do grupo Fugitive, na Lousiana State University. Tate, Ransom & Warren foram a santíssima trindade de Cal, sintetizando-se no seu João Batista. Ainda em 1941, Cal se alistou-se no exército para servir na Segunda Guerra Mundial, mas não foi convocado devido a problemas de visão. Entretanto, foi chamado em 1943, mas dessa vez recusou-se a servir em represália ao bombardeamento de civis em cidades alemãs.1 Como conseqüência, cumpriu cinco meses de prisão, completando a pena prestando serviço voluntário em Connecticut.

Os primeiros livros de poemas apareceram em 1944 e 1946. Land of Unlikness (1944) e Lord Weary´s Castle (1946), apresentam o domínio perfeito de métrica e da rima. Ambos os livros mostram a influência da conversão de Cal ao catolicismo em contraposição à sua formação episcopalista, bem como exploram a face obscura da herança puritana norte-americana. Nos dois primeiros livros, Lowell procurou combinar o seu horror com a guerra, crítica social e ironia à História e tormentos de fé religiosa.3 Lord Weary´s Castle foi agraciado com o prêmio Pulitzer quando Cal tinha apenas 30 anos. A poesia norte-americana, a partir de então, já não mais seria a mesma.

Cal e Jean divorciaram-se em 1948 e em 1949 ele casou-se com Elizabeth Hardwick, crítica e romancista. Em 1951 publicou o seu terceiro livro de poemas, The Mills of Kavanaughs. Neste, Lowell começava a abandonar o simbolismo católico,3 tão presente nos livros anteriores. Contudo, esse livro não apresenta a mesma força dos anteriores e caracteriza-se por monólogos dramáticos nos quais o poeta justapõe mitos clássicos com as paisagens da Nova Inglaterra. O início da década de 1950 na vida literária de Lowell não deve ser creditado ao seu terceiro livro, e sim a sua vida pessoal. No começo dos anos 50, Cal e Beth passaram a viver boa parte do tempo na Europa, em particular na Itália. Nesse período, Lowell foi acometido de vários surtos mentais, incluindo depressões que iriam acompanhá-lo no restante da vida.1 Inclusive, após a morte da mãe, em 1954, Cal foi internado no sanatório de McLean, Massachusetts. No meio das internações, chegou a ser aconselhado por um médico a escrever poemas para espantar seus demônios de criança, o que seria feito mais tarde. No restante da década, Lowell foi professor em várias universidades, como a Boston University, e durante o magistério foi professor de poetas não menos importantes como W. D. Snodgrass, Anne Sexton e Sylvia Plath.

No final dos anos 50, Lowell já era um poeta consagrado, tendo ganho os prêmios Harriet Monroe Poetry (1952) e Guinness Poetry Award (1959), bem como influenciado outros poetas. Enfim, poderia morrer sossegadamente em algum sanatório de Indiana. Entretanto, em 1959 publicou o seu livro de poemas Life Studies, um dos pilares da construção da poesia confessional norte-americana. Esse livro marcou uma nova e significante fase na sua carreira,3 além de estabelecer, com a herança poética de T. S. Eliot, uma importante divisa na poesia norte-americana no séc. XX. Com Life Studies, Lowell encontrou a sua voz: forte, poderosa e livre. A pessoa poética deixou de ser uma manifestação ou criação do poeta para ser o próprio poeta. Cal, aqui, antagonizou com a idéia de arte-pela-arte tão apregoada por Oscar Wilde, que dizia que a vida imita a arte. Em Life Studies a arte não existe sem a vida. Diferentemente de Fernando Pessoa, Lowell não lança mão da heteronímia para desmascarar-se. Na falta das máscaras, Cal rasga o próprio corpo. Os poemas que compõem Life Studies são estudos da própria vida do poeta: a juventude, os pais, os avós, as mortes, as casas, casamentos, os carros, a experiência na prisão em Connecticut, os sanatórios. Contudo, o poema visceral do livro é “Skunk Hour” (“A hora do gambá”), o qual de algum modo e guardando a distância temporal, resgata-nos o Paraíso Perdido, de Milton:

 “…I hear

my ill-spirit sob in each blood cell,

as if my hand were at its throat …

I myself am hell,

Nobody´s here”

“Skunk Hour” (Life Studies, 1959)4

” … Ouço

o meu espírito-doente soluçar em cada célula sanguínea,

como se as minhas mãos estivessem na garganta …

Eu sou o meu inferno,

e não há ninguém aqui”

Me miserable! Which way shall I flyInfinite wrath and infinite despair?Which way I fly is Hell; myself am Hell.

Milton (Paradise Lost, Book IV).5

Eu miserável! Como poderia escaparDa ira infinita e desespero infinito?Vôo como o Inferno; eu sou o Inferno.

“A hora do gambá” é um poema de oito estrofes, dividido em duas partes com quatro estrofes cada uma. Na primeira parte, Lowell começa descrevendo uma vila na costa de Maine, onde passou o verão de 1957. Durante as quatro primeiras estrofes, Cal percorre cenários e personagens vazios que habitam uma cidadela quase-morta, escarafunchando-os na sua mesquinhez até, já no primeiro verso da segunda parte do poema, estourar e apanhar o carro. À noite e do alto de uma colina, o poeta observa casais de namorados e de carros transando e confessa no último verso desta estrofe: “My mind´s not right” (“A minha cabeça não está legal”). Alucinado, Lowell evoca o Satã de Milton: “I myself am hell,/nobody´s here” (“Eu sou o meu inferno/ e não há ninguém aqui”). E emenda no primeiro verso da sétima estrofe: “only skunks” (somente gambás). “Somente gambás caçam presas fáceis ao luar”. Esta frase é a projeção de Cal. Ele próprio é um gambá malcheiroso que revira futilidades, lixo para sobreviver. Com uma diferença: os gambás não se incomodam em ser gambás.

Devido a Life Studies, Robert Lowell recebeu o prêmio National Book Award em 1960. Já em 1961 surge Imitations, livro de traduções de, entre outros, Baudelaire, Rimbaud, Rilke, Montale. Apesar de algumas imperfeições do francês,6 esse livro ganhou o prêmio “Bollingen Poetry Translation Prize” em 1962, ano em que, a convite de Elizabeth Bishop,6 Cal visita o Brasil e o registra no poema “Dropping: Brazil”: 4

“… The Latin Blonde,two strips of  ribbon, ripened in the sun,sleeping alone and pillowed on one arm.No competition. Only rings of boysbutted a ball to keep it in the air,

while inland, people starved, and struck, and died –

unhappy Americas, ah tristes tropiques!…”

“Dropping South: Brazil” (For the Union Dead, 1964)

“… Uma loira latina,dois trapos, amadurecida  pelo sol,adormece solitária usando o braço como travesseiro.Sem comparação. Somente um grupo de meninoscabeceiam uma bola mantendo-a no ar,

enquanto o povo passa fome no interior, faz greve e morre –

Américas infelizes, ah tristes tropiques!…”

 

A primeira metade dos anos 60 na vida poética de Lowell foi marcada por sua preocupação para além do próprio umbigo. Cal deixa de ser um poeta confessional para ser global, como no poema “Dropping South: Brazil”. Este poema tem um começo de “realismo-fantástico”, onde a pessoa poética cruza uma sala de leitura e encontra a própria alma. Esta entra, literalmente, num globo terrestre e vai parar nas praias tropicais, provavelmente, do Rio de Janeiro. Lá encontra uma mulher, maravilhosa, tomando sol, enquanto a gurizada fica batendo balãozinho à beira-mar: paradisíaco. Contudo, o poeta lembra que a vida no interior é oposta àquela visão idílica: o povo passa fome, morre. Lowell cita o Lévi-Strauss dos Tristes trópicos. Além dessa visão do Brasil, absurdamente atual, Robert Lowell manifesta preocupação com o mundo como um todo, como está refletido no poema “For the Union Dead”, o qual deu título ao seu livro de 1964. No poema, Cal adverte para a possibilidade de aniquilação da raça humana, decorrente do uso de armas nucleares: 4

… The ditch is nearer.There are no statues for the last war here;on Boylston Street, a commercial photographshows Hiroshima boilingover Mosler Safe, the “Rock of Ages”

that survived the blast. Space is nearer.

When I crouch to my television set,

the drained faces of Negro school-children rise like balloons.

“For the Union Dead” (For the Union Dead, 1964)

… O fosso está próximo.Não há estátuas  dedicadas à última guerra;Um cartaz  na Boylston Streetmostra Hiroshima fervendosobre Mosler Safe, a “A Rocha das Eras”

é que sobreviveu à explosão. O espaço está próximo.

Quando troco o canal da TV,

as faces encardidas de crianças negras sobem como balões.

 

Robert Lowell também aventurou-se pela dramaturgia, tendo publicado em 1965 o livro The Old Glory, sem a mesma importância dos seus poemas e só para constar em sua biografia, que é uma trilogia baseada nos trabalhos de Herman Melville e Nathaniel Hawthorne. Near the Ocean (1967), um livro de poemas, acaba sendo um trégua, uma recuperação de forças, no qual o poeta retoma os temas dos seus primeiros trabalhos apresentando, contudo, sua maturidade poética.3

A partir de 1967, Lowell envolveu-se cada vez mais nos movimentos pacifistas. Contudo, o desgosto e a frustração com os eventos sociais e econômicos de seu país motivaram-no a escrever poema sociais na forma de sonetos, porém em versos livres. Tais poemas foram publicados, inicialmente, em 1969, no livro Notebook 1967-1968. Esses poemas em conjunto com outros abordando temas sociais e pessoais foram publicados em 1970 como Notebook.4 Neste livro, Cal retoma vozes do passado e do presente em constante agonia e acaba sendo a base para o surgimento de três livros de poemas, todos publicados em 1973: History; For Lizzie and Harriet e The Dolphin. Este último lhe valeu o prêmio Pulitzer em 1974. Sobre esse mesmo livro Elizabeth Bishop comentou: “Ao meu ver é muito melhor que Notebook… é tudo muito mais claro. Os poemas me afetaram de modo imediato e profundo”.6

Robert Lowell morreu em Nova Iorque, no dia 12 de setembro de 1977. Nesse ano foi publicado o seu último livro de poemas, Day by Day, e que, para variar, recebeu postumamente, em 1978, o National Book Critics Circle Award. Se de bêbado, louco e poeta cada um tem um pouco, Cal foi a essência disso tudo num lugar proibido para tudo isso e denunciou a hipocrisia do paraíso sendo o fruto e a serpente do seu jardim.

Referências

1Modern American Poetry, www.english.uiuc.edu/maps/g_l/lowell/bio.htm

2Modern American Poetry, www.lib.utexas.edu/hrc/fa/lowell.bio.htm

3Stauffer, B., B. A Short History of American Poetry. E. P. Dutton & Co., Inc., New York, 1974.

4Lowell, R. Life Studies and For The Union Dead. The Noonday Press. New York, 1980.

5Milton, J. The Poetical Works of John Milton. MacMillan C., New York, 1905.

6Giroux, R. (seleção e organização). Uma arte: as cartas de Elizabeth Bishop. Trad. Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras, São Paulo, 1995.

Portrait of poet Robert Trail Spence Lowell

[foto: The New York Sun – www.nysun.com]

Robert Lowell

Traduções de Marco Aurélio Cremasco

DROPPING SOUTH: BRAZIL

Walking and walking in a mouthy robe,

one finger pushing through the pocket-hole,

I crossed the reading room and met my soul,

hunched, spinning downward on the colored globe.

The ocean was the old Atlantic still,

always the swell greened, rushed white, and fell,

now warmer than the air. However, there

red flags forbade our swimming. No one swam.

A lawless gentleness. The Latin blonde,

two strips of ribbon, ripened in the sun,

sleeping alone and pillowed on one arm.

No competition. Only ring of boys

butted a ball to keep it in the air,

while inland, people starved, and struck, and died –

unhappy Americas, ah tristes tropiques!

and nightly in the gouges by the tide,

macumba candles countered Yemanjá,

tall, white, the fishtailed Virgin of the sea,

corpselike with calla lilies, walking

the water in her white night gown. “I am falling.

Santa Maria, pray for me, I want to stop,

but I have lost my foothold on the map,

now falling, falling, bent, intense, my feet

breaking my clap of thunder on the street.”

CAINDO PARA O SUL: BRASIL

Andando e andando dentro de um pijama cheio de traças,

com um dedo aumentando o buraco do bolso,

atravessei a biblioteca e encontrei a minha alma

agachada, espiralando-se para baixo dentro de um globo colorido.

O oceano ainda era o velho Atlântico,

sempre o arrogante esverdeado, o branco impetuoso e cruel,

agora mais quente do que o ar. Por outro lado, lá

as bandeiras vermelhas proibiram nosso mergulho. Ninguém nadou.

Uma delicadeza anárquica. Uma loira latina,

dois trapos, amadurecida pelo sol,

adormece solitária usando o braço como travesseiro.

Sem comparação. Somente um grupo de meninos

cabeceiam uma bola mantendo-a no ar,

enquanto o povo passa fome no interior, faz greve e morre –

Américas infelizes, ah tristes tropiques!

e todas as noites, arrancadas pela maré,

as velas de macumba cortejam Yemanjá,

alta, branca, a virgem-sereia do mar

envolta de lírios brancos, no seu véu branco noturno,

caminha sobre as águas. “Estou caindo.

Santa Maria, rogai por mim. Quero parar,

mas perdi o pé de apoio no mapa,

agora caio, caio, desvio, intenso, meu pés

violam as minhas palmas de trovão na rua”.

SKUNK HOUR

For Elizabeth Bishop

Nautilus Island’s hermit

heiress still lives through winter in her Spartan cottage;

her sheep still graze above the sea.

Her son’s a bishop.  Her farmer

is first selectman in our village,

she’s in her dotage.

Thirsting for

the hierarchic privacy

of Queen Victoria’s century,

she buys up all

the eyesores facing her shore,

and lets them fall.

The season’s ill-

we’ve lost our summer millionaire,

who seemed to leap from an L. L. Bean

catalogue.  His nine-knot yawl

was auctioned off to lobstermen.

A red fox stain covers Blue Hill.

And now our fairy

decorator brightens his shop for fall,

his fishnet’s filled with orange cork,

orange, his cobbler’s bench and awl,

there is no money in his work,

he’d rather marry.

One dark night,

my Tudor Ford climbed the hill’s skull,

I watched for love-cars.  Lights turned down,

they lay together, hull to hull,

where the graveyard shelves on the town. . . .

My mind’s not right.

A car radio bleats,

“Love, O careless Love…” I hear

my ill-spirit sob in each blood cell,

as if my hand were at its throat…

I myself am hell,

nobody’s here-

only skunks, that search

in the moonlight for a bite to eat.

They march on their soles up Main Street:

white stripes, moonstruck eyes’ red fire

under the chalk-dry and spar spire

of the Trinitarian Church.

I stand on top

of our back steps and breathe the rich air-

a mother skunk with her column of kittens swills the

garbage pail

She jabs her wedge-head in a cup

of sour cream, drops her ostrich tail,

and will not scare.

HORA DO GAMBÁ

Para Elizabeth Bishop

A herdeira ermitã da Ilha Nautilus

ainda vive na sua cabana espartana durante o inverno;

as suas ovelhas continuam pastando pelo mar.

O seu filho é um bispo. O pastor

é o primeiro vereador em nossa vila;

ela está maluca.

Sedenta por sua privacidade hierárquica

do século da Rainha Vitória,

ela compra todas

as quinquilharias da praia,

e as leva à merda.

A estação está uma bosta-

perdemos o nosso verão milionário,

que parecia ter saído de um catálogo da

L. L. Bean. Seu barco de nove-nós

foi leiloado para pescadores de lagostas.

Uma mancha rubra escaldante cobre a Blue Hill.

E agora o nosso decorador

bicha limpa a loja para o outono,

sua rede de pesca está repleta de rolhas alaranjadas,

laranja, banquinhos, corujas;

porcarias sem valor,

ele preferiria estar casado.

Numa noite escura,

o meu Ford Tudor escalou o topo da colina,

observei os carros dos enamorados. Luzes desligadas,

eles estavam lado a lado, casco a casco,

onde os túmulos do cemitério adentram na cidade…

A minha cabeça não está legal.

O rádio de um carro bale,

“Amor, Oh! Amor indolente…” Ouço

o meu espírito-doente soluçar em cada célula sanguínea,

como se as minha mãos estivessem em cada uma de suas gargantas…

Eu sou o meu inferno;

e não há ninguém aqui-

somente gambás que buscam

no luar besteiras para comer.

Eles marcham para a Main Street:

faixas brancas, fogo rubro dos olhos lunáticos

sob a cal seca e a torre espiral

da Igreja da Santíssima Trindade.

Permaneço no topo

de nossa lembrança e respiro ar puro-

a mãe-gambá com uma fila de filhotes emporcalham-se

no balde de lixo.

Ela soca o focinho numa xícara

de creme de leite, deixando seu rabo de avestruz cair,

e não ficará assustada.

MAN AND WIFE

Tamed by Miltown, we lie on Mother’s bed;

the rising sun in war paint dyes us red;

in broad daylight her gilded bed-posts shine,

abandoned, almost Dionysian.

At last the trees are green on Marlborough Street,

blossoms on our magnolia ignite

the morning with their murderous five days’ white.

All night I’ve held your hand,

as if you had

a fourth time faced the kingdom of the mad–

its hackneyed speech, its homicidal eye–

and dragged me home alive.  . . .Oh my Petite,

clearest of all God’s creatures, still all air and nerve:

you were in our twenties, and I,

once hand on glass

and heart in mouth,

outdrank the Rahvs in the heat

of Greenwich Village, fainting at your feet–

too boiled and shy

and poker-faced to make a pass,

while the shrill verve

of your invective scorched the traditional South.

Now twelve years later, you turn your back.

Sleepless, you hold

your pillow to your hollows like a child;

your old-fashioned tirade–

loving, rapid, merciless–

breaks like the Atlantic Ocean on my head.

MARIDO E MULHER

Apaziguados por Miltown1, deitamos na cama de mamãe;

o nascer do sol com pintura de guerra nos tinge de vermelho;

os pés dourados da cama brilham em plena luz do dia

abandonados, quase dionisíacos.

Finalmente as árvores estão verdes na Marlborough Street,

as magnólias que desabrocham dão partida

à manhã com os seus cinco dias vazios.

Toda a noite eu segurei sua mão,

como se você tivesse,

pela quarta vez, confrontando o reino da loucura-

sua fala vulgar, seus olhos homicidas –

arrastaram-me vivo para casa.  . . . Oh minha Petite,

a mais alva de todas as criaturas divinas, conserva o atrevimento

dos nossos vinte anos, e eu,

certa vez segurando os óculos

e o coração na boca,

embriagado no Rahvs pelo calor

de Greenwich Village, desfaleci a seus pés –

excitado e tímido

gélido como um jogador de pôquer na hora do lance,

enquanto o entusiasmo cortante

de seus impropérios abrasou o Sul conservador.

Agora, doze anos depois, você volta.

Insone, segura

o travesseiro na barriga como uma criança;

sua verborragia antiquada –

e ama, sofregamente, impiedosa –

e se quebra como o Oceano Atlântico na minha cabeça.

1Uma espécie de tranquilizador bastante usado na década de 50 nos EUA (N.T.)
FATHER’S BEDROOM

In my Father’s bedroom:

blue threads as thin

as pen-writing on the bedspread,

blue dots on the curtains,

a blue kimono,

Chinese sandals with blue plush straps.

The broad-planked floor

had a sandpapered neatness.

The clear glass bed-lamp

with a white doily shade

was still raised a few

inches by resting on volume two

of Lafcadio Hearn’s

Glimpses of unfamiliar Japan.

Its warped olive cover

was punished like a rhinoceros hide.

In the flyleaf:

“Robbie from Mother.”

Years later in the same hand:

“This book has had hard usage

On the Yangtze River, China.

It was left under an open

porthole in a storm.”

O QUARTO DO PAI

No quarto de meu pai:

a linha azul da colcha

tão fina quanto a escrita de uma caneta,

pontos azuis na cortina,

um quimono azul,

chinelos chineses com correias de pelúcia azuis.

O chão de tábuas largas

perfeitamente lixado.

Uma mesinha branca

com abajur de vidro claro

de umas poucas polegadas

descansava o volume dois

de Vislumbres do Japão pouco conhecido

de Lafcadio Hearn.

Ele tinha capa oliva

castigada como um couro de rinoceronte.

Na folha de rosto:

“A camisola de Mamãe.”

Anos depois e com o mesmo cuidado:

“Este livro foi usado pra caramba

no Rio de Yangtze, China.

Estava abandonado sob uma portinhola

aberta durante uma tempestade.”

HISTORY

History has to live with what was here,

clutching and close to fumbling all we had-

it is so dull and gruesome how we die,

unlike writing, life never finishes.

Abel was finished; death is not remote,

a flash-in-the-pan electrifies the skeptic,

his cows crowding like skulls against high-voltage wire,

his baby crying all night like a new machine.

As in our Bibles, white-faced, predatory,

the beautiful, mist-drunken hunter’s moon ascends-

a child could give it a face: two holes, two holes,

my eyes, my mouth, between them a skull’s no-nose-

O there’s a terrifying innocence in my face

drenched with the silver salvage of the mornfrost.

HISTÓRIA

A História tem de viver com o que estava aqui,

controlando de perto para tatear tudo o que tínhamos –

ela é tão enfadonha e horrível como a nossa morte,

ao contrário do que se escreve, a vida nunca termina.

Abel estava ferrado; a morte não é remota,

uma fagulha na panela eletrifica o cético,

as suas vacas aglomeram-se como crânios nos fios de alta-tensão,

o seu bebê chora todas as noites como uma máquina novinha em folha.

Como em nossa Bíblia, pálida, predatória,

o belo, a lua do caçador embriagado ascende –

uma criança poderia dar-lhe um rosto: dois buracos, dois buracos,

os meus olhos, a minha boca, entre eles um crânio sem nariz –

Oh! Existe uma inocência aterradora na minha cara

encharcada com o resgate prateado da geada matinal.

DOLPHIN

My Dolphin, you only guide me by surprise,

a captive as Racine, the man of craft,

drawn through his maze of iron composition

by the incomparable wandering voice of Phèdre.

When I was troubled in mind, you made for my body

caught in its hangman’s-knot of sinking lines,

the glassy bowing and scraping of my will…

I have sat and listened to too many

words of the collaborating muse,

and plotted perhaps too freely with my life,

not avoidinginjury to others,

not avoiding injury to myself –

to ask compassion . . . this book, half fiction,

an eelnet made by man for the eel fighting

my eyes have seen what my hand did.

GOLFINHO

Meu golfinho, só você para guiar-me de surpresa,

um cativo como Racine, o homem dos engenhos,

tragado para o seu labirinto de composição férrea

pela voz vaga e incomparável de Fedra.

Quando eu estava pra baixo, você resgatou o meu corpo

sufocado numa rede de pesca

com todo o cuidado para não quebrar os meus desejos…

Eu sentei e escutei um monte

de coisas do meu devaneio,

e conspirei livremente com a minha vida,

sem se preocupar em não machucar outros,

sem se preocupar em não machucar a mim mesmo –

para pedir compaixão… este livro, metade ficção,

uma rede para enguias feita pelo homem para a luta de enguias

meus olhos vêem o que as minhas mãos fizeram.

EPILOGUE

Those blessèd structures, plot and rhyme-

why are they no help to me now

I want to make

something imagined, not recalled?

I hear the noise of my own voice:

The painter’s vision is not a lens, it trembles to caress the light.

But sometimes everything I write

with the threadbare art of my eye

seems a snapshot,

lurid, rapid, garish, grouped,

heightened from life,

yet paralyzed by fact.

All’s misalliance.

Yet why not say what happened?

Pray for the grace of accuracy

Vermeer gave to the sun’s illumination

stealing like the tide across a map

to his girl solid with yearning.

We are poor passing facts,

warned by that to give

each figure in the photograph

his living name.

EPÍLOGO

Essas estruturas abençoadas, enredo e rima –

por que nenhuma delas me socorre nessa hora?

Quero fazer

algo da imaginação, não de recordação.

Ouço o ruído da minha própria voz:

A visão do pintor não é uma lente, treme para acariciar a luz.

Mas às vezes tudo o que escrevo

com a arte surrada de meus olhos

parece uma foto instantânea,

pálida, rápida, luminosa, amontoada,

ampliada da vida,

ainda que paralisada pelo fato.

Tudo é um concubinato.

Por que não diz o que aconteceu?

Reze para a graça da precisão

que Vermeer deu à iluminação do sol

serpear como a maré através de um mapa

até a sua rígida pupila ambiciosa.

Somos atos pobres e fugazes,

advertidos por dar

a cada figura na fotografia

o seu nome em vida.

Waly Salomão em BABEL

Waly foto

Waly Salomão em BABEL: abaixo transcrevemos depoimento performático  de Waly em evento do qual ele os editores da  BABEL participaram em Joinville, o qual foi publicado na edição 3 da revista, em 2000 [Ademir Demarchi, editor]

 Nesta edição de Babel apresentamos um depoimento de Waly Salomão dado no encerramento do 5.º Encontro Catarinense de Escritores, realizado pela UBE-SC nos dias 23 e 24 de novembro de 2000, na Casa de Cultura de Joinville. Mantendo o aspecto de mosaico da fala de Waly, inserimos no meio do depoimento três questões e respostas publicadas em Linguarudos (letradagua@terra.com.br), feitas por Denniz Radünz e Joel Gehlen, promotores do Encontro e editores da revista, que teve seu primeiro número lançado naquele evento. Completam o depoimento poemas inéditos especialmente escritos para Babel e poemas do mais recente livro de Waly, Tarifa de Embarque (2000), resenhado nesta edição por Susana Scramin. Waly Salomão nasceu em Jequié, na Bahia, filho de pai sírio e mãe sertaneja baiana. É poeta, letrista gravado por cantores renomados da música popular brasileira, entre os quais Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa. Seu livro de poemas Algaravias foi ganhador do prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional (1966) e do prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (1997). Com Torquato Neto criou a revista Navilouca, uma das mais peculiares dos anos 70. Com Ana Duarte preparou o livro póstumo de Torquato Neto, Últimos dias de Paupéria. Organizou e editou Alegria, alegria – caetanave textual de Caetano Veloso e, com Lygia Pape e L. Figueiredo, Aspiro ao grande labirinto, livro póstumo de Hélio Oiticica. É na poesia, porém, que Waly tem se destacado ultimamente publicando com certa regularidade seus livros e ganhando importância crescente ao investir numa poética que, tal como sua fala, prima pelo mosaico e alcança registros interessantes e até mesmo polêmicos, como o que ocorreu envolvendo o poema “Novelha cozinha poética”, publicado pela primeira vez na Folha de São Paulo/Mais!, e que suscitou uma pecha de anti-semitismo ao autor – um dos assuntos do depoimento que ora apresentamos. A criação poética de Waly está publicada nos livros Me segura que vou dar um troço, que depois republicado na antologia Gigolô de bibelôs (Brasiliense);  Câmara de ecos (Ed. 34), Algaravias (Ed. 34), Lábia (Ed. Rocco) e Tarifa de embarque (Ed. Rocco), assim como em Armarinho de miudezas (Fund. Casa de Jorge Amado), que reúne também artigos e ensaios. A fala de Waly Salomão aqui transcrita se inicia como intervenção em meio a uma mesa-redonda sobre as leituras da contemporaneidade, da qual participaram o editor de Babel, Ademir Demarchi e o co-editor Mauro Faccioni Filho, juntamente com o escritor Fábio Brüggemann e o performer Carlos Alberto Franzói. Após reações suscitadas pela leitura do editorial de Babel n.º 2, no qual se enfatiza a negatividade e a inutilidade da poesia, várias pessoas manifestaram indignação com a afirmação de que a poesia seria inútil e em particular o escritor Artemio Zanon ameaçou rasgar uma Babel e seu próprio livro de poemas em protesto. Numa tentativa de contestar a revista, o mesmo escritor questionou o fato dela estar à venda, já que a poesia seria inútil, assim como questionou por que se publicava nela “um Prêmio Nobel como Kavafis”. Com tal afirmação, de fato ingênua ainda que apresentada como uma certeza, por isso tida como provocação, houve uma intensificação dos debates entre os presentes e Waly Salomão, que estava na platéia, partiu em defesa de Kavafis, protestando contra a atribuição a ele de um Prêmio Nobel, julgada uma ofensa por Waly que, a partir de então, durante sua intervenção e na palestra dada em seguida, também transcrita, usou o Sr. Artemio Zanon como ponto de sua performance, sempre se referindo a ele como “o senhor”. O ponto, vale lembrar, é o auxiliar de cena que, fora da vista do público, recorda aos atores suas falas.   WALY SALOMÃO – É um absurdo o que o senhor está dizendo! Kavafis nunca recebeu um Prêmio Nobel! Toda a vida dele ele escreveu foi poemas de pegação, de pegação de rapazes que ele encontrava nas ruas, em bares horrendos! Os poemas de Kavafis são pequenos lances de pegação, pegação em quartos escuros de hoteizinhos onde se entra para trepar – TREPAR! Pois é. Ele diz pelos poemas que depois da pegação sai, olhando prum lado, olhando pro outro. Não é essa a obra de Kavafis? Ou é outra e eu estou doido? Deve ser o calor daqui, que lembra o calor da minha terra. Pois ele sai olhando prum lado, olhando pro outro, um sai na frente, depois o outro, após deixar os lençóis sujos de ES-PER-MA! E é um amor totalmente que n’ouse pas dire son nom – em bom português: um amor que nunca ousa dizer o nome. Eu desafio o senhor a dizer se há um único poema em Kavafis que trate de transa de homem e mulher! Não tem! Os poemas são assim, refletem o que estou dizendo – isso em grego se chama kínema e em inglês se chama cinema. E ele fica dizendo que na verdade o que há são aqueles lençóis sujos de esperma, de gala, da sujeira anal, tudo muito inútil em termos de acumulação capitalista. Ali é que, décadas depois, tem a origem – olha a genealogia louca da poesia em Kavafis! – ali é que tem origem aqueles belos poemas que o poeta vai lembrar décadas depois. Então, ele é um exemplo bem claro de anticapitalismo, de perseguição que tem de objetivos, mas não da acumulação capitalista e sim da pegação amorosa, que é excessiva até. Me mostre o Prêmio Nobel, não dê Prêmio Nobel, não atribua Prêmio Nobel a quem viveu a vida inteira como um excesso, como um marginal dos mais vagabundos do que todos aqueles que não queriam ser recuperados pelo senhor. Em hipótese alguma. Kavafis tem uma obra relativamente curta. Lawrence Durrell, aquele que escreveu O Quarteto de Alexandria, mostra nesses romances quem é Kavafis. Alguém citou Paulo Leminski – pois ele é pinto junto da bicha des-vai-ra-da, des-vi-a-da, do viadão que é um dos poetas que eu mais admiro. Ele parece outro, também bastante premiado, Fernando Pessoa, que em vida teve um único livro publicado – hoje todo mundo chora por Fernando Pessoa, mas Pessoa só teve um único livro, Mensagem, que foi menção honrosa num concurso oficial, desses patrocinados por governos totalitaristas. Menção honrosa. Os outros livros dele, todo mundo tem que se orgulhar, as mocinhas choram, os mocinhos também, nem em vida foram publicados. Eles se parecem. Kavafis foi um dos maiores poetas do século XX, mas não atribua a ele uma integração no sistema que é o oposto à sua poesia. Desculpe minha intervenção, mas eu não estava agüentando e gostaria que a mesa entrasse em computador e descubra  Prêmio Nobel para Kavafis – eu dou o cu como ele não ganhou o Prêmio Nobel! BABEL – Após essa fala Waly Salomão saiu do recinto e o Sr. Artemio Zanon, como bom advogado, logo sugeriu à platéia que o poeta poderia ser processado por ter feito uma acusação de injúria pós-morte ao dizer que Kavafis era viado. A seguir, a transcrição da palestra dada por Waly. WALY SALOMÃO –  Vou iniciar por um grego bem antigo que é o pai da poesia, pelo menos do Ocidente, porque não só tem poesia no Ocidente. Tem os grandes poetas persas, tem Omar Khayam, mas eu vou falar mesmo é de Homero rapidamente. Sabe o que Homero diria para o senhor? Que poeta mente demais. É uma frase de Homero. Ele está pedindo que essa pessoa saiba desconfiar. Saiba piscar os olhos para não aceitar as palavras dos poetas. Poeta mente demais. O poeta não fala o que se chama verazmente verdade. O poeta fala uma coisa que transcende o território, o chão, o plano da prosa do mundo. O poeta fala o que se transforma. Não é fácil, beira a fábula. Poeta mente demais, é bom desconfiar do poeta. Eles estão tão longe que isso é um insulto a todos os poetas. É um insulto considerá-los facilmente digeríveis, facilmente integráveis, porque a verdade da qual é constituída a fala deles é um território, é uma areia movediça. Poeta mente demais. O poeta não está no território da verdadezinha aceitável, facilmente digerível. Nada disso. E acho que aqui vi temas bem interessantes, vi um choque entre o velho e o novo bastante interessante que indica produções maiores para a cultura de Santa Catarina. Melhor água parada, gera a pestilência. Outro poeta diz, o poeta inglês chamado William Blake, diz que água parada gera pestilência. Eu gostei de ver aqui o que eu chamo de um choque entre o velho e o novo. Gostei muito de ver isso, gostei desde manhã quando eu vi não aquele ritual de mea culpa que os partidos totalitários usavam, mas um escritor de peito aberto dizendo, abrindo a fala e abrindo o discurso para mostrar que está por trás da cortina, mostrando que ele não é burocrata. Refiro-me a Fábio Brüggemann mostrando suas falhas – foi um fato. Eu gostei disso. Isso tudo mostra o grau de fermentação, de fecundidade, melhor do que uma cultura ficar fechada em si acreditando totalmente nos valores só regionais se não tem um embate com o estranho, com o diferente. Eu sou estranho, eu sou diferente. Na minha vida eu fui me inventando. Um destino familiar eu cumpri até uma certa época, estudei Direito, me formei em Direito, no tempo em que a Faculdade Federal de Direito da Bahia valia alguma coisa, antes de virar a merda que é atualmente. Tinha lá alguns luminares do Direito. Tinha Aliomar Baleeiro, Orlando Gomes, alguns nomes nacionais mais importantes. Pois fiz todo o curso como um pretenso bacharel, me formei até para, depois, meus senhores, me tornar um douto dali para frente, sem caminho de volta. O poeta está acima, numa esfera diferente da esfera oikos, econômica. O poeta está na esfera da produção de si mesmo. Você pensa que o nosso ilustríssimo Luís de Camões, levando, salvando das águas Os Lusíadas, um canto poético, que nos legou um dom à língua, um dom do que somos, fundou tudo isso, valia algo? Ele era quase um arquivo surdo para os portugueses, era nada, quase nada. Há uma legião de poetas com a qual eu aprendi muito e acho justíssimo o que o Fábio Brüggemann disse sobre a relação de poder do escritor. Eu, por exemplo, peço a vocês desconfiarem do que estou falando, piscar os olhos, não acreditar no meu papo de mascate, de filho de mascate, vendendo uma mercadoria barata e diáfana que se esgota e que na verdade pode levar o senhor a tudo resistir. Não faça isso. Pode-se levá-lo para a areia movediça ou para o mangue que circunda aqui, que vai daqui ao mar. O que estava tentando falar? – meu discurso é assim, não venho preparado de casa, podem ir ao Procon protestar, não vim de prêt-a-porter, a minha cabeça vai precipitando o que tem de falar na hora, vai armando o seu discurso na hora. O poeta é assim, eu não conheço muitos exemplos de poetas integrados e cantadores de regime mas eu acho que… lembrei! quem era o monstro que estava batendo na minha cabeça, que me lembrou um pensador francês chamado Maurice Merleau-Ponty ,pensador existencialista, que me iluminou em alguns momentos em que eu estive perto, muito perto, de ser chamado de “avó da sucuri”. Tô morando no Rio e o prefeito eleito de Salvador veio me pegar no Rio de Janeiro pra eu desempenhar o papel em Salvador, na Fundação Gregório de Matos, da qual eu fui um dos fundadores e depois um dos presidentes. E na Bahia como que se incorpora essa coisa pagã chamada carnaval, eu era o coordenador também do carnaval. O carnaval que outro poeta modernista, Oswald de Andrade, chamava de o acontecimento religioso da massa. Veja como os poetas falam. Eles falam sempre sobre o signo da constrição. Pois é, o Merleau-Ponty dizia o seguinte: que o intelectual, mesmo não tendo traído antecipadamente a qualquer tradição, mesmo sendo leal, a não ser os capachos, aí já é outra situação, o poder vê sempre com desconfiança ao intelectual, que é aquele que não pode saber das mumunhas, das tramóias do poder. Mesmo ele não dando nenhum sinal de traição prévia, ele é suspeito. Pra mim isso sempre foi um dos pontos claríssimos que marcaram minha relação, que nortearam minhas ações, mesmo eu próximo lá do poder político. Entre as regras bastante claras de coerência e formação que tive há uma que é saber sempre que, em relação ao poder, não há como o poder gostar realmente do intelectual. Assim, eu penso que seria bom que essa cunha entre os escritores e o poder no Estado de Santa Catarina e nos diferentes municípios fosse marcada, que a cunha fosse aberta, que a distância aumentasse. Isso seria salutar para a literatura daqui do Estado. Sinceramente, seria. O que eu vi aqui falar foi de um tipo de capachismo. Isso não pode realmente existir. Uma dependência bastante grande, não é fácil. Eu dizia antes que terminei o curso de Direito, nem peguei o diploma, só bem mais adiante peguei, sabe pra quê? Com uma intenção do tipo embromatória. Eu ia para os EUA, era ditadura militar no Brasil e passar pela fronteira, pela Polícia Federal, advogado é bom, para entrar nos EUA. Lawyer é ainda melhor, aí fui pegar meu diploma que estava lá às traças, que por pouco já haviam começado a roê-lo. Um rapaz com mesmo nome do José do Patrocínio guardou e disse “Ah, eu sabia que um certo dia você acabaria por pegá-lo aqui”. Porque só com esse embromatório pra meu passaporte ia poder sair para os EUA. Agora, pro Rio, fui  com uma mão na frente e outra atrás, como o Castro Alves, sem outras grandes proteções. Depois fiz uma música – eu era marxista, existencialista, numa determinada época e ficava, na verdade, cumprindo na verdade um catolicismo inquisitorial contra o dinheiro. Eu só ficava pensando contra o dinheiro. Como se o dinheiro tivesse uma “vis”, que no latim quer dizer “força”, uma força demoníaca do dinheiro. Todo português e o espanhol têm esse lado de desconfiança com o dinheiro que vem da Idade Média, da Contra Reforma. Pois é! Isso com uma letra de música, depois no momento que essa letra ia ser gravada eu pensava se valeria a pena, não tem razão de ser. Gal [Costa] gravava a letra, aí o dinheiro falava… O dinheiro que eu tô dizendo é aquele pouco dinheiro que me faltava. Quer dizer, poeta vai abrindo mercado malgrado seu, aos trancos e barrancos, nada é muito feito. Depois, por altivez, nos últimos anos, eu fui recusando totalmente e fazendo até um alarde contra a música popular e a favor da poesia de livro. “Você é a favor de que mesmo?” De um mercado, desse que diz um inofensivo que é a poesia. Uma dificuldade imensa pra poder ser absorvida e circular como moeda de troca na sociedade capitalista. Basta ler as páginas introdutórias daquele livro. Não é por ter caído o Muro de Berlim e caído todos os supostos regimes socialistas, que aquilo já caiu de podre mesmo – a Rússia despencou mesmo – mas não é por isso que as páginas, por exemplo, de um homem como Karl Marx, estão ultrapassadas. Quem disse que aquelas páginas de Marx falando do sangue humano no trabalho, que é transformado no capital, na mais-valia, estão ultrapassadas? Quem disse que a página fabulosa introdutória ao Manifesto do Partido Comunista não tem rigor hoje? Tem sim. Basta ler que você vê que tem e tem muito rapidamente aqui, no Brasil. Não estou pregando aqui nenhum regime obsoleto, nada disso. Eu estou tentando, realmente, ao contrário de um fato coerente, trazer incoerências instigantes que possam mover as pessoas a pensar. Por exemplo, quando eu discordei do sr., de tarde, é porque o sr. estava atribuindo ao poeta Kavafis um prêmio que é da sagração, da integração. Não é que não tenha sido esse prêmio concebido aos grandes nomes, grandes que, por terem recebido o prêmio – Thomas Mann, por exemplo, tenha desmerecido seu trabalho de romancista, não é por ter recusado o prêmio que Jean Paul Sartre o tenha desmerecido. Mas atribuí-lo a um poeta que nunca o recebeu, realmente eu acho mais que grave, é insultuoso. Logo depois que eu saí o sr. falou que era um insulto o que eu disse, que poderia até me processar por eu estar desonrando a imagem de um poeta morto que aqui não poderia responder. Estou lhe dizendo que eu conheço suficientemente a obra dele pra lhe dizer que é uma obra pequenininha, de um dos maiores poetas do século e todos os poemas dele são dedicados ao amor homoerótico. É claro para mim, não há dúvida sobre isso. E os homens que ele ama, o poeta Konstantino Kavafis ama, são homens barra pesada, não são homens bem comportados, mauricinhos, não. São homens bem barra pesada. Homens assim, da rua, de lugares bem do submundo, bem da sarjeta mesmo. O que que isso desmerece a vida de um poeta? No que isso o desmerece? Ao contrário, isso pra mim é um aguilhão, é um esporão, isso sempre me atraiu na obra dele. Agora, aí de mostrar que a poesia não tem lugar ascético para gerar, para ser gerada… A poesia não gosta do cheiro do éter, dos lugares hospitalares, limpíssimos – não, lugares hospitalares onde se pegue doenças hospitalares, ela não gosta daquele cheiro horrendo, não. Ela vem exposta com uma linguagem, gosta dos lugares cheios de bacilos, de bactérias. A linguagem gosta disso. A linguagem poética, então, gosta disso, gosta da perdição. Todos os grandes poetas falam disso. Sabe o que disse Baudelaire? Um dos seus grandes poemas se chama Flores do Mal e ele só cantava o lado errado. O lado errado disso numa ótica ortodoxa, usando palavra de Benjamin, ortodoxa quer dizer o caminho correto, limpo, claro, nítido. Os poetas gostam das zonas muitas vezes brumosas, opacas, gostam quando a linguagem não quer só dizer uma coisa, quando a linguagem é contrabandista, quando ela é igual aquelas malas de contrabandistas, que têm áreas embaixo, esconderijos, iguais aquelas bonecas russas, Babushkas, pega uma boneca, dentro tem outra boneca, dentro da qual tem uma outra boneca… Ou as caixas chinesas: dentro da caixa tem uma caixinha e dela outra caixinha… Poesia é isso, são outros meios, poesia nenhuma é interpretável assim de uma vez por todas, como  se você pegasse um poema e aquela linguagem você vara limpidamente com sua mente racional, cartesiana e pra todo o sempre você já pensou aquela poesia igual a uma borboleta alfinetada. Não é assim que se dá a poesia. Ela se dá de forma entre… Pois é, o nosso Baudelaire, sabem o que que ele diz? Ele diz coisas inacreditáveis; ele manda desconfiar do progresso. Diz que o progresso não está no ar-condicionado, na luz elétrica, na escada rolante, no telefone celular, no gravador, em nada disso está o progresso. Mas aí o poeta vai pra uma redução, ele diz que o progresso está no apagamento dos traços do pecado original. Olha como os poetas são subversivos! São até anticristãos, não acreditam num mundo assim bíblico. Acreditam pra revertê-lo. Olha que coisa estranha! É Baudelaire, outro criador da poesia contemporânea, que diz isso; o pecado é o apagamento, a diminuição dos traços, da norma, do pecado original. Aí é que está o sinal do progresso. Se a gente conseguir diminuir essa presença esmagadora da culpa, da culpabilidade derivada do pecado original, aí é progresso. Você pode instalar o que quiser, escadas rolantes, mesas giratórias, celulares, cúpulas arquegeodésicas, cobrir as cidades de ar-condicionado, isso não representaria, na visão dele, progresso. Progresso seria uma viragem nisso, uma coisa pequeniníssima, a diminuição, o apagamento dos traços do pecado original – isso representaria progresso. Afinal, o que estou tentando falar? Nem eu mesmo sei porque de fato não venho organizado. Eu aprendi que palestra, a origem etmológica vem da fala, parlare, conversar, parlamentar – tudo isso vem… quer dizer, não pode chegar aqui um poeta e proceder como um erudito, trazer sua fala toda prontinha de casa. Tem que tropeçar. Quanto a vocês, eu só indico a primeira versão metodológica que eu dei, principalmente para o sr.: lembrar de Homero – “poeta mente demais”. Isso é verdade, poeta mente demais. Eu gostaria de poder prosseguir, não como quem vem aqui receitar, desculpe a expressão, caga-regras, mas poder ter uma troca. Eu sinto, eu tenho experiência, acho que sim, porque tenho me jogado no mundo de peito aberto, sem pejo, sem medo, nem esperança, cumprindo uma legenda medieval: “nec netum, nec spe”, nem medo, nem esperança. Ainda bem que hoje o ministro pede pra voltar o latim. Eu estudei latim – “nec netum, nec spe” – nem medo, nem esperança. É assim que a gente tem que estar no mundo. Agora, eu sinto que aqui no Estado de Santa Catarina, com uma boa fermentação e com uma boa diminuição do medo ao outro, do medo ao estranho, do medo da babel, confusa, do medo não só à revista e principalmente também à revista; sem esse medo, com a diminuição disso, e com a coisa de ter que diminuir a defesa – [em tom de arremedo:] “Aqui é reserva, esse é meu, aqui é nosso território, ninguém entra, nós temos dificuldades, pra nós escrevermos, temos dificuldade pra penetrar no eixo Rio-São Paulo. Também não vamos deixar que ninguém invada nosso território”. É preciso mudar essa postura e ver as coisas sem medo, nem esperanças também, vãs, a que chegar a um bom lugar. Por exemplo, há 12 anos eu comecei a ir, fui chamado pela primeira vez, para ir ao Estado do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Cheguei lá e constatei que a defesa da tradição é imensa. Tinham uns senhores lá com aquelas roupas, chimarrão e bombacha… chimarrão e principalmente uma mente bem nativista, bem da defesa do seu reduto. Isso me lembra o Marx da introdução ao Manifesto, a defesa do local, do localismo. Ele mostra que a grande obra burguesa é estraçalhar com esses localismos, essas defesas, com essas coisas. Pois é. Aí eu fiquei assombrado com aquele modo, mas já havia uma certa juventude inquieta lá que falava o oposto daquilo, já quebrando aquele tipo de fortaleza local, porque isso, meu senhor, está próximo do fascismo. Não se precisa ter lido o Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, mas se deve ter lido, é obrigatório ler, eu acho. É. Pra saber o quanto isso é próximo de um fascismo caboclo, caricatural, bem caricato – “Defendermos a nossa coisa…” Pois é, eu fui voltando muitas vezes a Porto Alegre e fui vendo um sociologismo barato, eu fui vendo a nuvem crescendo e o Mercosul e a vontade de transar com o diferente. O espaço para o que vem de fora é cada vez maior e no entanto sem perder a especificidade da cultura local. Eu fui voltando tantas vezes que a estrada se dá de mão dupla, não precisa ficar tão paranóico. A estrada não se dá de mão única, não, se dá de mão dupla. E o que parece tão difícil de ocorrer como a quebra do isolamento, da ilha, do ilhamento, acaba ocorrendo. Eu, por exemplo, fui pra lá como eu sou, baiano, quer dizer, baiano é metido a besta, vide o Rui Barbosa, que foi ensinar inglês na Inglaterra para ingleses. Não é inglês para estrangeiros. Era tão metido a besta que era inglês para ingleses, conforme dizia a placa na porta da casa dele. Pois é, eu já fui repetidas vezes a Porto Alegre, tenho voltado, o meu amor tem sido crescente por aquela localidade, crescente e explícito. No meu último livro de poesia tem um poema de amor desbragado àquela cidade. E havia uma discussão que foi “Outros 500”, agora com a discussão dos 500 anos do Brasil. A noite em que participei foi com Eduardo Bueno e eles fizeram um caldeamento, que pode ser uma receita também: botava sempre toda noite uma personalidade de fora – eu ia dizer um ET, como eu – eu sou um ET, meus senhores! Eu não duvido! “ET phone home!” Daqui a pouco eu vou telefonar pra fora, pras minhas estraturas. Comigo estava o Eduardo Bueno e o Tarso Genro, atual prefeito eleito, um intelectual da maior estatura, do maior gabarito, poucos críticos brasileiros têm a estatura dele. É Tarso Genro e esse outro ET chamado Jorge Mautner; e Antonio Cicero, tudo gente assim, um de lá, um de fora. Um ET, um local. Pois é, e eu fico ensinando, como bom baiano metido a besta, padre nosso a vigário, a comunidade de vigários. Eu fico falando, está aqui a prova. Digo que sim, fui pra lá, li Dyonélio Machado, grande romancista dos pagos, todo mundo teve que procurar e ler, aqui é paixão de ler, é um dos programas de paixão de ler – Os ratos, pelo menos, um grande romance, de um gaúcho comunista. As coisas vão se dando assim, você também vai se abrindo e deixando entrar no espaço, crescendo o espaço para aquela área que você foi visitando, foi cortando. E agora, no próximo disco do Caetano [ocorre uma trovoada] (…) Depois eu volto, é outro assunto. Depois eu volto e dou um nó nesse vento! Poeta é assim. Tem que ir caçando as lebres devido o acaso. Sabe o que é uma lebre devido o acaso? É assim que vive o poeta. Veja que vida mais inútil! Caçando uma lebre devido o acaso. O caçador vive assim, outro como o poeta. [Dirige-se a uma presente] Ela está de vermelho e branco. Eu disse a ela que é minha cor preferida. Vou revelar por que eu disse isso: é a cor do meu orixá, Xangô, que é o mesmo que está aí, ó [ouve-se trovões, lá fora]. Ele é o que ronca na trovoada. Por isso eu fico assim, começo, paro, começo… Quer dizer, poeta vai se fazendo de um eruditismo, de uma cultura imensa toda feita de restos, de inutilidades, do que não é aproveitável, do que não tem pragmatismo nenhum. Aquele ser realmente existe. “Uma alma emputecida, uma sombra esquisita que se esquiva por entre laços de família”. Isso eu já dizia do poeta desde a Navilouca que eu fiz com Torquato. [Waly faz menção ao som de novas trovoadas]. Você pode não ter medo. Eu tenho. Quer dizer, poeta sobrevive na honra dele, estamentos, camadas bem antigas, bem primevas. Se não fosse assim… na minha família nós somos 7. Meu pai veio da Síria, de uma ilha do Mediterrâneo, ele nem chegou à idade moderna. [Novas e intensas trovoadas] Está vendo? Sabe o que é isso? É Nietzsche. É assim, convive na alma do poeta o que é além do mundo atual e coisas bem aquém, primevas mesmo. Eu me arraso. Eu fui levar para dona Maria Bethânia a letra de “Mel”. Chego na casa dela antes de ter até música porque isso é outro traço que eu ia trocar com ela – altivez. Poeta tem que ter altivez. Tanto diante do poder quanto diante dos poderes. Primeiro que hoje não se fala mais poder no singular. São poderes. Eles são disfarçados em linguagens. Então, por exemplo, em vez de fazer, eu ficava pensando: quem são as pessoas da música popular? Elas são tão poderosas, ganham dinheiro, são cantores ou cantoras, então a relação do poeta com isso vai ser uma relação ancilar? O sr. sabe o que no latim quer dizer ancila? É cela, escrava. Há uma relação ancilar? Não. Tem que ser uma relação altiva. Então, eu sempre fiz letra precedendo, a poesia antes da música que prosseguir sobre aquela poesia; a letra deve preceder como uma forma de preservar a poesia. Cheguei lá e estava assim [referindo-se às trovoadas]. Ela mora assim, junto de uma pedra, a Pedra da Gávea, e o céu estava arriscado. Aquela mulher, tão corajosa, tão forte, toda encolhida, sofrendo cada golpe desse raio. Isso nunca sumiu da minha cabeça. Hoje, sabe até um ponto que eu faço para essa relação ser realmente altiva? Eu falo mal da música popular. No entanto, não consigo, poeta não vive de brisa, tem a vida também, concreta, real, paga conta, filhos – melhor não tê-los, mas se não temos como sabê-los? – diz o Vinicius de Moraes. Um engole xampu, o outro quer engolir gilete, pois é, como é que se sustenta filhos? Eu tenho dois! Aí você fala mal e os poetas publicam livros que são edições pequenas; por essa ou aquela razão uma grande editora já se ocupa de mim. Isso é um privilégio. Isso já é uma etapa do trabalho que você mesmo disse, que a própria idade ajuda nisso. Então, a editora já aceita publicar um livro meu. Mas quanto às vendas, só um maluco vai pensar que eu posso ombrear com um best seller. Não posso. As vendas são assim, no lançamento no Rio eu faço uma balbúrdia de mascate, de camelô. Aliás, esqueci de lhe dizer naquela hora falando de Kavafis que eu conheço o modelo. Sou atraído pela viadagem dele. Exatamente. Não estou insultando a memória, não. É isso, é essa coisa dele ser diferente, de escrever com aquela dignidade total. Há vários pontos na poesia que nenhum cego atingiu mas ele tem um outro texto, pequenininho, um textículo, em que ele fala que o poeta tem que ser o mercador de sua própria poesia. Há esses fatos da tarde. Eu quis até dizer isso, mas achei que não valia a pena de tarde. Só estou falando isso pra mostrar que eu conheço bem o que o meu nariz se interessa – eu tento conhecer bem! Ele fala que o poeta tem que usar todas as formas porque há uma diferença geral sobre ele. Ninguém se interessa. Você começa sempre do zero e no Brasil tem que matar um leão a cada livro que lança. [O sr. Artemio Zenon levanta-se e vai até o palco para despedir-se de Waly Salomão] Sinta-se à vontade, pode sair, não se preocupa comigo, não. [ruídos de agradecimentos e despedidas] Pois é isso que o poeta tem que se tornar, um mercador. [Declama:]   Vi terras de minha terra Por outras terras andei Mas o que ficou marcado Não é o olhar fatigado Foram terras que inventei.   BABEL – Você conhece o poema “Explicação do fato”, do Torquato Neto? WALY – Eu fiz o livro do Torquato, Os últimos dias de Paupéria, com sua viúva, Ana. Ele foi um grande companheiro de viagem, fizemos juntos a Navilouca. Esse poema não devo conhecer, pois o livro é entupido de falhas e quando foi feito não queria ser completo, queria ser um livro que mantivesse a chama da lembrança do Torquato viva.  Isso o livro conseguiu. Foi feito um ano depois que Torquato se suicidou – você pensa bem o que é isso, para um grande amigo e pra viúva dele. Nós dois fizemos um livro, entupido de falhas, mas o seu objetivo foi cumprido, era ser fagulha, manter acesa a chama de Torquato. Agora, o jornalista carioca Paulo Roberto Pires está fazendo uma edição ampliada do livro, na qual entrará artigos meus mais atuais sobre Torquato, tentando compreendê-lo. [Aponta para o lugar vazio, onde estava o sr. Artemio Zenon]. Professor, o senhor saiu mas o seu fantasma ainda está ali. Eu adoro conversar com fantasmas. “Cave canem”. Sabe o que é isso? Quando a cidade de Pompéia foi redescoberta, entre as poucas coisas que tinha ficado dela foi o aviso “Cuidado com o cão”, aí eu botei isso no título de um texto sobre o Torquato, que vai estar nessa nova edição de Paupéria, muito mais completa. Por exemplo, noutro dia o Paulo Roberto Pires me dizia que tinha achado um texto que estava no jornal O Globo. Eu, Torquato e Ana participávamos do jornal. Como se explica esquecer um texto publicado no jornal em que eu e Ana publicávamos, os dois organizadores do livro, a não ser pela dor, pela pena, a tremenda dor da morte de Torquato? [Lê]   AMANTE DA ALGAZARRA   Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar. É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto. É ela!!! Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa, Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.   Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro Vixe!!! Enquanto caminho a pé, pedestre – peregrino atônito até a morte. Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento: Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar. É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.   Quem corre desabrida Sem ceder a concha do ouvido A ninguém que dela discorde É esta Selvagem sobra acavalada que faz versos como quem morde.   *             *             *   Eu faço versos como quem chora, de desalento, de desencanto. Fecha o meu livro se por agora não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue, volúpia ardente, tristeza esparsa, remorso vão. Dói nas veias amargo e quente, cai gota a gota do coração. E nesses versos de angústia rouca afim dos lábios A vida corre deixando um acre sabor na boca. Eu faço versos como quem morde.   WALY – Outra pergunta, vamos lá! [Uma mulher toma a iniciativa] Olha a roupa dela! [Risos] MULHER DE VERMELHO E BRANCO – Você disse que é mercador de sua poesia… WALY – Não! Eu falei Kavafis! Ele que disse! Kavafis é aquele viado que aquele homem ficou zangado e deu a ele o Prêmio Nobel pra isultá-lo. Eu me identifico, é claro. Acho que o poeta tem que usar todas as possibilidades – para quê? para falar a quem? pra quem que você escreve? Pra ninguém. Ou pra qualquer pessoa que queira abrir- parece aquelas garrafas de náufrago. MULHER DE VERMELHO E BRANCO – Alguém me disse que uma pessoa esteve no Jô Soares e era da Bahia. E essa pessoa comentava que vendia sua poesia, era camelô de sua poesia. Era o senhor? WALY – Evidentemente que não. Eu sou tão falso pra senhora! É claro que sou eu! Você assistiu ao programa? MULHER DE VERMELHO E BRANCO – Me contaram… WALY – Ah! “Me contaram”. Desconfie do que contam, minha senhora. Desconfie muito. Olhe bem, até numa das perguntas do Linguarudos a mim tinha uma bem capciosa que dizia assim “sua figura pop-televisiva”. É porque o poeta tem que aproveitar qualquer janela, principalmente as janelas do caos. No caso do Jô eu já fui algumas vezes. A primeira vez que fui tive muito alerta de amigos. Aquele José Simão ligou pra mim e disse assim: “Cuidado! O Jô tem cortado todo mundo que vai com livro, começa a falar e ele corta”. Eu fui no Jô e a Adriana Calcanhoto estava nos bastidores. Quando eu saí do programa é que eu entendi que tinha feito uma coisa espantosa porque todo mundo estava se sentindo oprimido pelo Jô. Uma força qualquer veio e eu não deixei o Jô falar. [Ri] Todo mundo se sentia oprimido. Ora, o poeta não é o senhor da linguagem? Ou a linguagem não é uma senhora que se apossa do poeta? São dúvidas que eu tenho, não é? Pode ser. Então, como é que eu ia chegar ali e ficar oprimido? Principalmente oprimido por uma coisa que eu senti incubada naquela pergunta. Eu acho que é um preconceito da Escola de Frankfurt, que surgiu numa Alemanha que persegue a ascensão do nazismo e sucede a todas as experiências loucas e democráticas da República de Weimar. Está sanduichada, emprensada entre as duas coisas. Então, eles têm uma desconfiança, um pé atrás, que eu acho excessivo na conceituação da indústria cultural. O poeta já é deslocado de um veio principal da cultura, do mainstream da cultura. Por mais que você lute, daqui a um ano se eu chegar aqui em Joinville eu vou ter que começar do zero de novo. A maioria de vocês nem sequer –  “A memória é uma ilha de edição” – vão se lembrar de meu nome e o que eu disse. É assim que o poeta raciocina, ele é a memória. Ele pensa que pode ser a memória. De outra vez encontrei no Jô um outro poeta – você vê que as relações são diferentes – Antonio Cicero, grande poeta, que eu admiro muito; entramos; na época nós trazíamos grandes pensadores e poetas internacionais como o Prêmio Nobel, esse sim Prêmio Nobel, Derek Walcott, um negro caribenho que ganhou o Nobel, grande poeta, e outros pensadores. Pois é! Ficamos ali. Quando as luzes começaram a se acender, o Cicero olha pra mim e fala assim: “Você parece um menino, parece que está em festa infantil!” Falei: “Ah, estou sim. Eu gosto de luzes. Tá vendo aquele holofote lá? Ele tá se arreganhando porque me viu”.  “Você está louco!” Ele ficou extremamente acanhado, perdeu quase a fala, num nível quase de afasia, uma pessoa de inteligência brilhante, que é possuidor, a um nível quase de afasia, sentiu-se desconfortável. Eu disse pra ele “Tá legal, você é filósofo. Então vou lhe dizer que eu me sinto em casa. Aquele holofote começou a brilhar quando me viu”. Eu entro e acendo um lado lúdico, regressivo, infantilóide que me vem à tona, eu me sinto realmente menino em aniversário, animado, e as idéias vão se precipitando e não me deixo apagar. Isso é raro. Eu fui uma terceira vez no Jô, agora, quando lancei este meu último livro, Tarifa de Embarque. Eu fui porque fui convidado pela produção. E alguns programas de televisão, mesmo com a oferta da editora, não estavam aceitando o meu produto. Aí, de repente, vem e o Jô cai no colo. Eu vou como quem tem que ir, sem medo. Medo de quê?  [Declama]

Enquanto o rico trabalha

Minha voz longe se espalha

Zombando do próprio horror.

  Parece de um semi-analfabeto. Então, a gente tem que ver a educação não como uma forma de confirmação só pra pequenos objetivos, uma pequena carreira, pra eu defender meu quintalzinho; deve ser uma ampliação, até uma força motora pra diminuir uma das coisas que mais nos envergonha, a mim por exemplo, as desigualdades absurdas que o Brasil tem de renda, a miséria, então você, o intelectual, fica lá encastelado. Sabe que eu faço um trabalho em Vigário Geral exatamente porque eu adoro essas situações onde pode existir uma reversão simbólica. Ali houve uma chacina, é uma favela do Rio, e a polícia penetrou na calada da noite como sói acontecer com essa banda podre policial e 21 cadáveres deixou, número esse significativamente do dia da Descoberta do Brasil. 21 caixões, 21 pessoas mortas. Pois é, logo depois um grupo se reuniu e começou a fundar o que viria a ser o Afro Rei, um grupo cultural para trabalhar com os garotos e garotas dali, para tirar do tráfico, da possibilidade de estar unido ao negócio da droga, ou outras formas de ascensão a quem não tem ascensão e dar opções, dar alternativas. Pois é, eu sou ligado a esse grupo até hoje, sou um dos diretores desse grupo. O que que eu faço lá? Sou engenheiro. Faço pontes, faço conexões. Não é isso? Porque a gente vai fazer o quê? Ficar encastelado? “Ah eu quero ser o bom só pra ser bom?” Também eu quero ser o bom pra mudar o mundo, tentar mudar o mundo. Essas são ainda utopias do tempo que eu tinha utopias e eu até hoje ainda tenho, mesmo quando quero negá-las. É aí que eu me lembrei, assim, aos pouquinhos, disso. Eu gosto de reversões simbólicas. Na língua portuguesa tem até um fenônemo engraçadíssimo, que eu vi na Bahia se realizar. O Pelourinho, que era o lugar onde se supliciava o negro, era o lugar em que o senhor da terra assistia ao negro fujão ou negro ladrão ser chicoteado. Pois é. Ou então ao judeu que cobrava alto porque era uma cidade dominada pelo catolicismo inquisitorial, não esqueça; então o Pelourinho, um lugar de vergastação pública, vai ter um fenômeno lingüístico chamado apócope – a palavra vai diminuindo de Pelourinho para Pelorinho, Peloro, Pelô e nessa apócope também vai acontecer uma reversão sígnica, de significado, de símbolo, vai havendo uma reversão, uma mudança. O lugar que era de suplício vira um lugar onde o corpo se explende em todo o seu vigor cinético. É o lugar do Olodum. Da mesma forma, o Vigário Geral hoje já é um sinal de alegria. Já tem a banda 1, a banda 2, que vai pro mundo inteiro. O garoto agora que sabe andar de perna-de-pau, que é uma prática africana, que eu vi muito na África negra, o garoto de Vigário Geral vai passar um ano convidado pelos EUA ganhando uma boa grana. É assim, vai havendo reversões de sinais. Eu gosto desses lugares. E aposto que aqui pode ser um lugar assim. Santa Catarina pode ser um lugar assim. Tem muito sinais disso. Esse Linguarudos, eu gostei muito do seu jeito, tanto da diagramação quanto das matérias, não só porque tem uma matéria comigo, não sou tão narcisista assim. Pois é, a última vez que eu fui a Porto Alegre, cheguei lá e de repente eu fui vendo, que espaço que eu tenho pra contar uma viagem regressiva, a viagem que eu fiz à Síria, uma viagem que você busca restabelecer os seus pontos de origem, a sua fonte, tudo,  mesmo meu pai tendo morrido lá há 40 anos, mesmo que nenhum dos meus irmãos tenha sentido esse acicate, essa vontade desse espinho furando de ir lá, aí eu fui lá e acabei descobrindo uma pequena ilha no Mediterrâneo, e era um momento assim de exasperação emocional. Eu chorava, eu ficava contente, mas encontrei o irmão dele, encontrei toda a família e foi uma maneira pra eu conseguir contar isso no Jô. O Jô termina o programa dizendo publicamente uma coisa que já tem me criado problemas. Ele disse: “Você tem um grande defeito em sua vida”. Falei: “Qual?” “É um defeito muito grave, não vem ao meu programa com assiduidade”. Pois é, hoje tem escritor que já me pede: “Pô, Jô é seu amigo, Jô disse aquilo”… Não é verdade. Eu fiz três vezes o programa dele. Não é verdade que eu tenha a mídia aberta pra mim. E aqui não pode virar igual como eu vi por exemplo Nação Cariri, um grupo cearense. Era tão hostil. Foi exatamente no lançamento do livro do Torquato. Foi na cidade de Fortaleza, esse grupo era bem hostil e encarava a gente, eu, Cacaso, Antonio Cicero, como se nós fôssemos figuras poderosas da mídia. Como se a gente mandasse na revista Veja, como se a gente fosse um inimigo; um inimigo a ser derrotado. Falavam, acusavam, enfim. Isso é um tipo de cabotinismo, de nacionalismo localista que eu não gostaria de ver aqui, isso tem que ser modificado. O local não tem que ter medo de se ombrear com o que vem de fora. Nem tudo o que vem de fora é bom, a gente tem que ter uma grande seletividade, uma grande capacidade de escolha. Essa seletividade a gente vai aprendendo, ela não é dada de nascença. PLATÉIA – Você ficou de falar algo sobre o Caetano. WALY – Ah, sim. Era sobre Tarifa de Embarque, algo engraçado. A Adriana Calcanhoto pegou um poema e celcamou, ela não musicou. Olha que forma estranha a gente vai conseguindo na vida. Nada me foi dado de bandeja, eu não sou de família tradicional, o poder aqui no Brasil é um estamento, são as famílias tradicionais que vão se sucedendo, todos os poderes, já falei, não se deve falar em poder no singular, todos os poderes, inclusive o cultural. Querm dizer, a Adriana pega um poema e lê, nem bota música, lê. E acaba lendo até num disco ao vivo. Agora o Caetano chegou de fora e me liga, deixa um recado na secretária: “Adorei Tarifa de Embarque, gostei demais, muito, muito, muito”. Eu faço o quê? Fico passivo, não dou retorno, não estava em casa, não dou retorno depois. Eu achei que eu devia falar o que mesmo? Fiquei na minha. Passivo. Ele me liga de novo me deixando outro recado basicamente igual. Eu também chegava em casa um dia e aí ficava pensando que atitude eu vou tomar? Não tem atitutde que tomar. Se você se aproxima muito demais de uma figura assim proeminente do sol, você vira um mero satélite. Eu sempre tive esse cuidado de manter minha área, por pequena que seja, é minha luz, é própria. Por pequena que seja. É um tipo de orgulho de idiota, de bobo. Aí ele ligou uma terceira vez e por coincidência eu estava em casa, só que ele já ligava, o Rei Sol, reclamando: “Eu falei tal e você…” Aí eu estava junto e atendi e ele disse: “É que eu gostei muito de ‘Estética da recepção’, é que eu gostei muito de ‘Janela de Marinetti’, gostei muito de ‘Cobra coral’”. Aí eu falei assim: “Ô Caetano, olha, você se lembra que eu já lhe disse que Deus não dá asa a cobra – é um ditado brasileiro – mas que deu e você voa? Você é uma cobra, então fique sabendo que o que eu faço, eu faço pra você.” Aí eu sou sedutor – às vezes a gente tem que ser assim, mestre de sedução. É difícil mas é assim. Eu disse pra ele que tudo o que faço, faço pensando em você. [Rizadas] Olha a cobra! Aí ele pegou “Cobra coral” e musicou, está no novo disco dele, mas a letra é a mesma do poema. A grande idéia de Caetano, que ele é muito danado, foi pegar a própria idéia de cobra coral e da palavra coral e fazer um coral, que ele canta no disco, chamou o Lulu Santos e a Bethânia, que também cantam, fazendo um coral dos três. Musa tem dessas artes.   COBRA CORAL   Pára de ondular, agora, cobra coral: a fim de que eu copie as cores com que te adornas, a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada, a fim de que tua beleza teu langor tua elegância reinem sobre as cobras não corais.   Certa vez Ari e João Bosco, confuso, misturado, aquele mineiro asssim, me convidou porque eu tinha feito uma letra pra Bethânia, “Memória da pele”, que aliás é bem kavafiana, nunca confessei isso, mas é, de Constantino Kavafis, esse escritor que eu e aquele senhor adoramos por motivos opostos – ele adora porque o cara é Prêmio Nobel, eu adoro porque é um viado maravilhoso. [Rizadas] A vida é assim. Aí João Bosco me chamou, eu chamei Antonio Cicero e fizemos um bocado de letras para o disco de João Bosco. Foi a única vez que eu aceitei quebrar esse princípio da letra da poesia preceder a música. Ela já é tão forte, tão poderosa e os caras ganham rios de dinheiro – sem nenhum ressentimento – eu sou bem realizado nessa área, isso não é ressentimento, mas ganham. E usam Leminski de direitos autorais – são peanuts, são amendoins mesmo, é uma bobajinha que dá pra correr a vida, só. Aí, eu e Antonio Cicero decidimos que depois não tinha papo. Quando a revista Veja, quando Istoé, quando todos viessem para a gente, a gente não ia abrir papo. Íamos nos fechar em copas, em 7 chaves. De repente eu tô em São Paulo, num hotel, já com um cara da Veja defronte de mim, o telefone toca, é Antonio Cicero: “Waly, tal, o cara da Istoé ta ligando pra mim, quer uma entrevista e tal e nós decidimos que não íamos abrir o papo, não é? Tá confirmado?” Eu disse: “Cícero, eu estou com o Apoenam aqui de fronte, já estou dando tudo pra ele. Tudo”. “Cara, mas como é que você faz uma coisa dessas?” Digo: “Cicero, puta tem que estar com os braços abertos, tem que estar na janela com os braços assim”. Ele foi ligar revoltado para o Caetano. E o Caetano disse assim: “Não, o Waly está certo”. É isso. Não adianta você estabelecer estratégias – “Aqui não entro. Desse mingau não vou beber”. Não adianta isso. A única coisa que eu vejo que adianta, e essa é irremovível, e essa não deve ser contaminada por prostituições, é a relação sua no momento que você está escrevendo uma poesia. Essa é uma relação interna em que você não deve nem obediência às suas limitações de ego. Você deve ser extremamente genuíno. Eu sou obcecado. Eu escrevo no computador, apago, desligo, só falo computdor assim, acendo e apago. Muita gente que lida com o computador fala “Mas não tem isso de acender e apagar”, mas não adianta. Aí eu vou tentar concluir, uma palavra melhor vem à mente, eu volto ao computador e modifico. Essa relação é inteiriça. É uma relação sua absoluta com a expressão. Ela não deve ser tingida, manchada de outros comércios. Mas depois de feito um poema ou um livro ele é, por incrível que pareça, uma mercadoria estranhíssima. É um objeto bastante estranho, mas ele já está num nicho tão estranho que eu acho que você não deve aumentar as diferenças dele com o mundo. As poucas aberturas nós devemos aproveitar inteiramente e isso não estraga nada o que eu escrevi anteriormente, o que escrevi naquele momento, aquela pugna imensa, aquela luz, aquele embate, aquilo deve ser no momento integral, inteiro, sem turbações. Mas depois, quando você percebe, isso é que vale o poema “Estética da recepção”, você joga o livro no mundo e na verdade o retorno de um livro de poesia, o retorno é quase nenhum. A princípio isso angustia bastante. É um desespero. O próprio poema que eu fiz chamado “Estética da recepção” é que na verdade eu poderia perfeitamente, se eu quisesse ser pessimista – mas minha alma nunca se curva a isso – poderia ser “Estética da decepção”. Outro dia eu estava tentando mandar para aqui sem parar e não conseguia fazer chegar por causa do provedor, mandei 9 e-mails pra só chegar no dia seguite. Eu botei “Estática da recepção”, mas parece fora de estética da decepção mesmo. Mas é “recepção”. Quer dizer, é aquele retorno. E quando eu fiz esse poema, por exemplo, eu tinha lançado Lábia e o retorno é quase zero. Mas é porque, depois, um amigo americano me ensinou a ter um pouquinho de calma, é porque a poesia é recebida assim, de slow pace – ele me disse, devagar, é um passo bem vagaroso. A maneira como é feita a linguagem, na poesia, cria opacidades entre o emissor e o mundo. Cria uma rede, um bocado de véus de opacidade. Então, com isso tudo, os únicos convites que surgem, não sei de onde, por exemplo de certos programas que me recusaram terminantemente e de repente me aparece o Jô, a sua produção, alguém da editora, alguma coisa. Agora, me diga por que eu vou chegar no Jô e dizer que sou o gostozão, que minha poesia é inteiramente entendida, que eu não preciso mais… Não, eu chego como um ser vulnerável, meu livro está pronto, ele é bom ou ruim, ele já tem seus defeitos, suas qualidades. Agora, ali já sou eu de novo no mundo, o padre; de novo no mundo o que é mendigo da aceitação alheia. Você sabe que Hegel falava muito isso. E ele está mais do que certo. A gente nunca é pra ser querido pelo outro. Nenhum homem é uma ilha, não. A gente não vive inteiramente cheio, pleno de si. Eu sou um buraco.   ESTÉTICA DA RECEPÇÃO   Turris eburnea. Que o poeta brutalista é o espeto do cão. Seu lar esburacado na lapa abrupta. Acolá ele vira onça e cutuca o mundo com vara curta. O mundo de dura crosta é de natural mudo, e o poeta é o anjo da guarda do santo do pau oco. Abre os poros, pipoca as pálpebras, e, com a pá virada, mija em leque no cururu malocado na cruz da encruzilhada. Cachaças para capotar e enrascar-se em palpos de aranha.   Ó mundo de surdas víboras sem papas nas línguas cindidas, serpes, serpentes, já que o poeta mimético se lambuza de mel silvestre, carrega antenas de gafanhoto mas não posa de profeta: “Ó voz clamando no deserto”. Pois eu, pitonisa, falo que ele, poeta, não permite que sua pele crie calo dado que o mundo é de áspera epiderme como a casca rugosa de um fero rinoceronte ou de um extrapoemático elefante posto que nas entranhas do poema os estofos do elefante são sedas delicadezas carências de humano paquiderme.   É o mundo ocluso e mouco amasiado ao poeta gris e oco. Caatinga de grotão seco atada à gamela de pirão pouco. Suportar a vaziez. Suportar a vaziez como um faquir que come sua própria fome e, sem embargo, destituído quiçá do usucapião e usufruto do tino com a debandada de qualquer noção de impresso prazo de jejum.   Suportar a vaziez. Suportar a vaziez. Suportar a vaziez. Sem fanfarras, o vazio não carece delas.   LINGUARUDOS – A linguagem poética ainda pode, na era dos simulacros, romper o cerco e situar-se no cotidiano das pessoas? A tua militância pop/televisiva seria uma espécie de resposta? WALY – Nunca houve uma idílica idade de ouro para a poesia. Não adianta lamentações. A poesia tem que ser aventurosa e desbravadora e sem cagaços em relação ao mundo presente. Não suporto camisa-de-força. O mundo que me foi dado para viver é o que estou inserido e tento modificá-lo com o vigor do meu verbo encantatório, da minha parca lábia. Vejo o mundo violento como um jogo de armar, desarmar e muito amar. Nada é dado de bandeja mas A LUTA CONTINUA. LINGUARUDOS – O que seria, hoje, “um poema de arquitetura ideal”? Um sonho? WALY – “Fábrica do poema” pertence a meu livro mais premiado, Algaravias. Ele é de 1996 e é todo calcado no trabalho admirável da grande arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. Pé no chão e cabeça nas nuvens. Onirismos e as ferramentas usuais do poeta em sua prática. Feijão e sonho mesclados. LINGUARUDOSA Etnopoesia, com seus linguajares indígenas, afros, esquimós, ciganos etc, é um conceito que valoriza as minorias ou apenas evidencia a poesia como um gênero “branco”, de tradição românica ou anglo-saxônica? WALY – Essa pergunta deveria ser dirigida ao grande scholar Harold Bloom. Ele iria vociferar com o som e a fúria shakespeareana que lhe são pertinentes. Já eu sou fruto da mistura, sou baianárabe. Minha mãe é uma sertaneja baiana e meu pai é do crescente fértil, de uma ilha fenícia do Mediterrâneo. BABEL (Mauro Faccioni Filho) – Hoje uma série de novas publicações sobre poesia estão surgindo em todo o Brasil, e também no Rio de Janeiro, onde você vive. São publicações editadas por grupos de poetas mais jovens, basicamente os que começaram a lançar seus livros na década de 90. Cito o caso da Inimigo Rumor, do Rio. É uma revista que está revalorizando o trabalho do Cacaso.  Como você, pessoalmente, se relaciona com esses editores e esses poetas das novas gerações? WALY – A relação de poetas está longe de ser uma relação pacífica. Parece mais metaforicamente um ninho de víboras; é uma competitividade tão imensa, tão desbragada, tão feia… Quando eu lancei Algaravias, que acabou arrebanhando o Prêmio Jabuti e depois o Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional como melhor livro de poesia eu entendi, numa estratégia, que minha relação é bastante clara, respeitosa e assimiladora de poetas mortos da língua, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira; aquele poema “Amante da algazarra” é claramente uma relação de tensão espelhada em Manuel Bandeira ou Murilo Mendes; quanto aos poetas vivos existentes de novas ou de outras gerações, olha, eu fui aprendendo a ter outra relação muito mais… – poeta não é um ser simples – estamos falando de complexidades, então eu realmente fui vendo um grau tão intenso de entredevoramento, de autofagia, principalmente ultimamente e principalmente com a Inimigo Rumor, que eu estabeleci como que uma estratégia pra mim, pra minha produção, que é o seguinte: não quero competir com nenhum desses poetas. Não quero essa coisa de tirar tapetes debaixo, todas essas demonstrações bem mesquinhas, bem vis, que pululam, e abundantemente, a-bun-dan-te-men-te. Eu peguei e fiz um tipo de introjeção, cujo valor de camuflagem psicológica, de blindagem psicológica, pode ser perfeitamente pós o sofá, não precisa sofá nenhum que eu deito e já abro o jogo. Mas eu estabeleci que deveria competir comigo mesmo, quer dizer, exigir de mim um tipo de auto-superação constante. Então, tentar ser melhor do que eu fui no momento anterior. Isso é uma forma de driblar a competitividade externa, que eu acho mesquinha, insaníssima, negócio de passar a perna. Olha, eu tenho exemplos dolorosos que eu prefiro não descer a citações de nome. Agora mesmo, neste último livro eu tive um exemplo inacreditável. Eu fiz um poema que a Folha de São Paulo publicou em página inteira que desde o título era claro , que era “Novelha receita poética”, pegando um tipo de poeta que é totalmente biônico, fabricado nos departamentos de letras das universidades, absolutamente despido de qualquer experiência e se vangloriando disso. Meras estações repetidoras de esquemas, de professores, de departamentos de Letras. Pois é, era um poema bem claro. Depois um cara me acusa, na Folha, em artigo, de anti-semitismo – e eu sou semita. Ninguém me tira isso – eu sou semita. Esse mesmo cara pelo menos teve eu acho que um gesto de extrema honestidade intelectual dele que, na revista que ele dirige, a Cult, acabou publicando 3 poemas meus e agora me convidou numa carta muito gentil, respeitosa, onde ele afirmava a admiração dele pelo meu trabalho. Ele me convidou para um júri de poesia da revista. Então, eu vi que essa figura tinha sido um tanto impregnada por outras pessoas. [Lê]   NOVELHA COZINHA POÉTICA   Pegue uma fatia de Theodor Adorno Adicione uma posta de Paul Celan Limpe antes os laivos de forno crematório Até torná-la magra-enigmática Cozinhe em banho-maria Fogo bem baixo E depois leve ao Departamento de Letras Para o douto Professor dourar.   Quer dizer, se você for analisar a intenção da obra, que é um dos critérios de penetração – uma palavra erótica, desde o título já está claro – “Novelha cozinha poética” – então eu acho que te respondi. Eu prefiro fazer essa agonia, agonia que é de luta, embate, etimologicamente ágonos, do grego e internálizá-la, ela sendo uma exigência comigo mesmo. “Põe enaltivamente o fixo esforço da altura e à sorte deixe e às suas leis o verso que quando é alto e régio o pensamento súbito a frase o busca e o escravo ritmo o serve”. É um poema de Fernando Pessoa que eu uso como mantra. Quer dizer, eu prefiro isso, internalizado, essas expressões, eu uso isso como mantra, no momento que eu quero subir de um plano cotidiano – hoje estou advogado e quero preceder o momento de inspiração, eu repito isso ‘n’ vezes como uma oração, como mantra. Eu prefiro ter essa relação, livre, não-ortodoxa, não-canônica, com a tradição, usá-la a meu bel prazer, usá-la de uma forma sincrônica, pego poetas de diferentes tradições e épocas e me alimento deles, agora numa relação de pé atrás, desconfiada, afastada do tipo de competitividade com os poetas atuais. Quer dizer, a briguinha, a politiquinha, a vidinha literária, tô fora, cara! MULHER DE VERMELHO E BRANCOEu queria saber se teve algum poema que o sr. escreveu e possa ter se arrependido de tê-lo escrito e que possa ter estragado o restante de poemas bons do livro. WALY – Não, não penso essa relação assim, não. A minha relação com a produção não é assim. Sou muito obsessivo, obcecado, perfeccionista, e modifico um poema ‘n’ vezes. Aliás, vocês da Babel sabem disso, pois dei um exemplo. Enviei um poema e fui mandando ‘n’ versões, despudoradamente, pois não conhecia a revista; deveria ter um sentido de autopreservação, mas não, vou mandando um poema e as modificações que vou fazendo e a insatisfação com o que redigi anteriormente. Mas quando estão impressos os livros não tenho essa relação complexada, neurótica, de depois não gostar. PLATÉIA – Qual sua relação com a Academia? WALY – Com relação à Academia de Letras eu sou igual àquele cartaz que diz “Droga. Estou fora”. A não ser as verdadeiras, que essas não vou fingir que não… Olha, não gosto é de ter meus pés presos por vício. Sempre gostei de uma coisa na Bíblia, o negócio do senhor dos sábados, quer dizer, Cristo não se submetia às normas externas, às leis externas, ele era o senhor dos sábados. A mesma coisa. As drogas a gente tem que experimentá-las todas. Mas olha, tem o perigo do vício. Só isso. Só isso e é muito. Gosto dos meus pés com asas. Sou ligado a Mercúrio, a Hermes, não por acaso o patrono disso, não tem vícios, das pessoas que estão na fronteira, dos contrabandistas, dos mercadores honestos e dos ladrões também. Tudo ao mesmo tempo. O mundo não é tão nítido assim, o bem de um lado, o mal do outro; preto de um lado, branco do outro. Para o poeta o mundo não tem essa linearidade. São muito mais confusas e misturadas as fronteiras, o mundo é muito mais denso e ambíguo do que a vã filosofia, viu professor, cadê o fantasma dele? PLATÉIA – Eu queria que você dissesse mais ou menos como é o seu processo produtivo de um poema. Você parte de uma palavra, de uma seqüência? WALY – Olha, rapaz, aqui é o programa da Ana Maria Braga, não há receita, eu não posso ir pro forninho enquanto o papagaio está ali e eu estou aqui e vou passar pra vocês a receita… Eu acho que nem há um receituário único. Cada poema tem uma forma de se deflagrar, de se precipitar, que é diferente do outro. Na verdade a gente não comanda. Você não comanda como na linha de montagem industrial da Fiat; agora está só com 50 carros, depois de amanhã eu quero 2.800 carros. Não é assim. Não é como a linha de montagem industrial. É uma linha esquisita, enviesada, torta – Deus escreve por linhas tortas. Cada poema tem uma forma de vir. Eu acho que hoje é até difícil a pessoa ter uma poética total, englobante, um receituário prontinho, prêt-à-porter, poema com bula e tudo isso, eu dizia assim para cada poema, variações da arte poética. Hoje cada vez mais se considera que cada poema de per si constitui uma poética, porque surge com a marca evidente de derivação vivencial, deve passar pelo brisol do lido para que não permaneça um produto naturalista. E a operação inversa deve ser buscada para o que surgir precipitado por leituras, deve passar por uma imersão nos líquidos amnióticos da vivência. Por essas brechas elaboro minha poesia hoje. Nem naturalismo vitalista, nem intelectualismo excludente despido de neutralidade. Lâmina laboratorial das ruas. Não há receita, não há bula, o remédio vem, é um elixir, talvez um veneno, mas vem sem bula. Você não pode fazer e depois seguir uma seqüência, copiar, imitar a si mesmo. Eu tenho mantido essa exigência de auto-superação. O biscoito saiu bom, vou fazer 38 ou 380. Não dá certo. Então é uma decepção isso que respondo a você. Não tem receita. Não é um método que esconde o passo seguro do gato, não é isso. Esse pulo do gato às vezes se revela no auge da agonia, madrugada a dentro, mas depois aquilo é que te queima. Você depois volta a uma mesma situação. Depois da prenhez e da descarga, volta a uma situação de oligofrênico, de imbecil, de descrente até. Eu já cansei de nunca mais acreditar que nunca mais ia sair nada, nada, que não ia mais produzir é nada. Depois qualquer coisa, e são muitas as diferentes coisas, a poesia não tem lugar para pousar. Isso Murilo Mendes cansava de dizer. Mas ele [referindo-se ao poeta da platéia]  pensa que tem, o Prêmio Nobel pousa no ombro de um poeta e o poeta deixa de visitar o bas fond, a zona de desespero, a zona de pegação, pegação de garotos, ele achou que eu estava insultando um morto… PLATÉIA – Eu gostaria de saber se o senhor gosta da chamada poesia visual, que, ao meu ver, tem muito de semelhança com a poesia marginal dos anos 70 [menciona como exemplo um poeta do Rio Grande do Norte]. WALY – Eu não conheço a poesia visual. Ora, eu não gosto muito desses bottons, poesia visual, não quer dizer que eu não tenha gostado muito da poesia concreta dos irmãos Campos, do Décio e do Ferreira Gullar. Agora mesmo ganhei o livro do Gullar, desde o tempo da poesia néo-concreta, do formigueiro. Eu gosto. Agora, faço outra coisa. E quanto aos potiguares, o que me espanta no pessoal do Rio Grande do Norte, quando vou a esses lugares e eu digo quais são as áreas, porque eu nasci numa cidade da caatinga da Bahia, Juquié. Eu não posso ter esses preconceitos geográficos, mas é engraçado, você chega, o lugar é bem pobre, é bem sem perspectiva e em cada vez uma vanguarda mais exageradamente purista, isso eu não gostava cada vez que estive no RN, ou então em Aracaju, onde se vê a defesa inflamada da poesia semiótica, de cada experimento. Eu achava aquilo um descompasso. PLATÉIA – E o teatro na sua poesia? WALY – Primeiro que a maioria da poesia que eu conheço surge até por um desvio, por um erro até de tradução, de entendimento e tudo é que o poeta elabora. O poeta transforma a falha em fagulha, por um desvio, por um erro, por um erro até de entendimento é que surge muita poesia. Então, claro que o palco é uma expansão, claro que o palco é uma distorsão, e a gente tem que aceitar. Eu tenho muitos elementos quando eu falo fora do momento solitário de elaboração da poesia, quando eu falo muitos elementos me vêm do teatro. Estudei em escola de teatro, história e direção de teatro. Eu adoro Brecht, li muito, li Stanilavski. Você sabe que eu conheço Formação de ator? Você sabia? E uso! Agora, não dá pra ficar contando todos os truques! Eu uso, uso e abuso! Sabe que o poeta, fora daquele momento que eu disse que é a luta com o absoluto pra você se exprimir, eu acho que ali é o momento onde tem que se ter uma pureza, um grau de pureza, ou de impureza o maior possível, fora isso… Se eu vir você dizendo um poema com uma forma, com uma interpretação inteiramente diferente da minha, eu gosto. A gente tem que ser arrogante e humilde. Dá pra entender isso? Poeta tem que ser arrogante, as pessoas, todo mundo, todos nós, arrogantes e humildes. Então, se você lê uma coisa minha, de uma maneira que eu nunca li, isso pra mim é evidente que se eu fiz uma carta a um deus desconhecido e bateu em alguém, isso é uma alegria. Só posso receber como uma alegria. Tanto que eu mostrei aqui até uma coisa que começou com erro e ficou grande, que foi a interpretação de um poema em que o cara fazia erros que eu tinha induzido. Pois é. À maneira  que eu soube aceitar isso, eu poderia ter escrito um artigo e muita gente me soprava no ouvido para responder agressivamente. Eu fiquei pensando: a pessoa interpreta como quiser o que um poeta respondeu. Pode estar mais próximo ou não da fonte. Pode até desviar inteiramene do que foi a origem, mas não é assim o mundo? Não é pra ser assim? É ou não é? Ou você bota uma garrafa no mar já sabendo que ela está ali na ilha, então eu mando com CEP e com tudo pra ela. Eu não, vai sem CEP, vai sem endereço, vai sem direção, vai como uma amiga tonta, entende, vai solta no mundo. E é uma alegria quando bate, quando tem uma devolução, claro que é, tem que ser humilde. Eu não posso fingir que eu sou completo sem a contraparte. Isso não entrou, é uma mentira, uma arrogância tapada. Eu não sou possuído por essa arrogância. Por isso que eu adoro dar… autógrafos, dar e dar! Autógrafos! Isso é uma beleza. E agora, obrigado a vocês. Espero não ter decepcionado demais. Eu sou assim mesmo, um cantador. “Enquanto o rico trabalha / Minha voz longe se espalha / Zombando do próprio horror”.

Olá, hipócrita leitor!

Este blog publicará uma seleção do melhor conteúdo da série de 1 a 6 de BABEL – Revista de Poesia, Tradução e Crítica, editada impressa no formato livro em Santos – SP por mim, Ademir Demarchi, e pelos co-editores Marco Aurélio Cremasco (Campinas – SP), Mauro Faccioni Filho (Florianópolis – SC) , Susana Scramim (Florianópolis – SC) e Amir Brito Cadôr (edição gráfica) no período de 2000 a 2004. O blog publicará também conteúdos das edições 1 a 6 da série BABEL Poética, editada por mim, Ademir Demarchi e editada graficamente por Amir Brito Cadôr e Daniela Maura, publicada de 2011 a 2013 em Santos (cujo projeto ganhou primeiro lugar entre 170 outros em edital de 2010 do Programa Cultura e Pensamento promovido pelo MinC durante a gestão do ministro Juca Ferreira que resultou também na publicação das revistas Índio, Piseagrama e Recibo, todas com tiragens de 10 mil exemplares cada edição).