CHAMADO A ALGUNS DOUTORES

Dizem que não sabemos nada, que somos o atraso, que nos haverão de trocar a cabeça por outra melhor.

Dizem que nosso coração tampouco convém aos tempos, que está cheio de temores, de lágrimas, como o da calandria, como o de um touro grande ao qual se degola, que por isso é impertinente.

Dizem que alguns doutores afirmam isso de nós, doutores que se reproduzem em nossa mesma terra, que aqui engordam ou que se tornam amarelos.

Que fiquem falando, pois: que fiquem tagarelando, se isso lhes agrada.

De que são feitos os sentidos? De que é feita a carne do meu coração?

Os rios correm bramindo na profundidade. O ouro e a noite, a prata e a noite temível formam as rochas, as paredes dos abismos em que o rio sonha; dessa rocha são feitos minha mente, meu coração, meus dedos.

Que há no limite desses rios que tu não o conheças, doutor?

Pegue teus binóculos, teus melhores óculos. Veja, se pode.

Quinhentas flores de vacuidades distintas crescem nos balcões dos abismos que teus olhos não alcançam, sobre a terra em que a noite e o ouro, a prata e o dia se mesclam. Essas quinhentas flores, são meus sentidos, minha carne.

Por que se deteve um instante o sol, por que desapareceu a sombra em todas as partes, doutor?

Põe em voo teu helicóptero e sobe aqui, se podes. As penas dos condores, dos pequenos pássaros se converteram em arco íris e iluminam.

As cem flores da quinoa que semeei nos cumes fervem ao sol em cores, em flor se converteu a negra asa do condor e das pequenas aves.

É meio dia; estou junto às montanhas sagradas: a grande neve com lampejos amarelos, com manchas arroxeadas, lançam sua luz aos céus.

Nesta fria terra, semeio quinoa de cem cores, de cem espécies, de semente poderosa. As cem cores são também minha alma, meus infatigáveis olhos.

Eu, esvoaçando amor, arrancarei de teus ladrilhos as pedras idiotas que te fundiram.
O sonido dos precipícios que ninguém alcança, a luz da neve arroxeada que, espantando, brilha nos cumes; o sumo feliz de milhares de ervas, de milhares de raízes que pensam e sabem, derramarei em teu sangue, na menina dos teus olhos.

O latido de miríadas de larvas que guardam terra e luz; o vozerio dos insetos voadores, eu os ensinarei irmão, farei que os entenda.

As lágrimas das aves que cantam, seu peito que acaricia como a aurora, farei que as sinta e as ouça.

Nenhuma máquina complexa fez o que sei, o que do gozar do mundo gozo. Sobre a terra, desde a neve que rompe os ossos até o fogo das quebradas, diante do céu, com sua vontade e com minhas forças fizemos tudo isto.

Não fujas de mim, doutor, aproxima-te! Olhe-me bem, reconheça-me. Até quando hei de esperar-te?

Aproxima-te de mim; levanta-me até a cabine de teu helicóptero. Eu te convidarei ao licor de mil seivas diferentes; a vida de mil plantas que cultivei em séculos, desde o pé das neves até os bosques onde têm sua guarida os ossos selvagens.

Curarei tua fadiga que às vezes te nubla como bala de chumbo, te recrearei com a luz das cem flores de quinoa, com a imagem de sua dança ao sopro dos ventos; com o pequeno coração da calandria em que se retrata o mundo, te refrescarei com a água limpa que canta e que eu arranco da parede dos abismos que suavizam com sua sombra as nossas criaturas.

Trabalharei séculos de anos e meses para que alguém que não me conheça e a quem não conheço me corte a cabeça com uma pequena máquina?

Não, irmãozinho meu. Não ajudes a afiar essa máquina contra mim; aproxima-te, deixa que te conheça; mira detidamente meu rosto, minhas veias, o vento que vai da minha terra à sua é o mesmo; o mesmo vento respiramos; a terra em que tuas máquinas, teus livros e tuas flores contas, abaixo da minha, melhorada, amansada.

Que afiem facas, que façam sibilar açoites; que amassem barro para desfigurar nossos rostos; que tudo isso façam.

Não tememos a morte, durante séculos temos afogado a morte com nosso sangue, a temos feito dançar em caminhos conhecidos e não conhecidos.

Sabemos que pretendem desfigurar nossos rostos com barro; mostrar-nos assim, desfigurados, diante de nossos filhos para que eles nos matem.

Não sabemos bem o que há de suceder. Que caminhe a morte até nós; que venham esses homens a quem não conhecemos. Vamos esperá-los em guarda, somos filhos do pai de todos os rios, do pai de todas as montanhas. Será que jã não vale nado o mundo, irmãozinho doutor?

Não responda que não adianta. Maior que minha força em milhares de anos aprendida; que os músculos do meu torso em milhares de meses; em milhares de anos fortalecidos, é a vida, a eterna vida minha, o mundo que não descansa, que cria sem fadiga; que pare e forma como o tempo, sem fim e sem princípio.

LLAMADO A ALGUNOS DOCTORES

Dicen que no sabemos nada, que somos el atraso, que nos han de cambiar la cabeza por otra mejor.

Dicen que nuestro corazón tampoco conviene a los tiempos, que está lleno de temores, de lágrimas, como el de la calandria, como el de un toro grande al que se degüella, que por eso es impertinente.

Dicen que algunos doctores afirman eso de nosotros, doctores que se reproducen en nuestra misma tierra, que aquí engordan o que se vuelven amarillos.

Que estén hablando, pues: que estén cotorreando, si eso les gusta.

¿De qué están hechos los sesos? ¿De qué está hecha la carne de mi corazón?

Los ríos corren bramando en la profundidad. El oro y la noche, la plata y la noche temible forman las rocas, las paredes de los abismos en que el río suena; de esa roca están hechos mi mente, mi corazón, mis dedos.

Qué hay a la orilla de esos ríos que tú no conoces, doctor?

Saca tu largavista, tus mejores anteojos. Mira, si puedes.

Quinientas flores de papas distintas crecen en los balcones de los abismos que tus ojos no alcanzan, sobre la tierra en que la noche y el oro, la plata y el día se mezclan. Esas quinientas flores, son mis sesos, mi carne.

¿Por qué se ha detenido un instante el sol, por qué ha desaparecido la sombra en todas partes, doctor?

Pon en marcha tu helicóptero y sube aquí, si puedes. Las plumas de los cóndores, de los pequeños pájaros se han convertido en arco iris y alumbran.

Las cien flores de la quinua que sembré en las cumbres hierven al sol en colores, en flor se ha convertido la negra ala del cóndor uy de las aves pequeñas.

Es el mediodía; estoy junto a las montañas sagradas: la gran nieve con lampos amarillos, con manchas rojizas, lanzan su luz a los cielos.

En esta fría tierra, siembro quinua de cien colores, de cien clases, de semilla poderosa. Los cien colores son también mi alma, mis infatigables ojos.

Yo, aleteando amor, sacaré de tus sesos las piedras idiotas que te han hundido.
El sonido de los precipicios que nadie alcanza, la luz de la nieve rojiza que, espantando, brilla en las cumbres. El jugo feliz de millares de yerba, de millares de raíces que piensan y saben, derramaré tu sangre, en la niña de tus ojos.

El latido de miradas de gusanos que guardan tierra y luz; el vocerío de los insectos voladores, te los enseñaré hermano, haré que los entiendas. Las lagrimas de las aves que cantan, su pecho que acaricia igual que la aurora, haré que las sientas y oigas.

Ninguna máquina difícil hizo lo que sé, lo que gozar del mundo gozo.

Sobre la tierra, desde la nieve que rompe los huesos hasta el fuego de las quebradas, delante del cielo, con su voluntad y con mis fuerzas hicimos todo esto.

¡No huyas de mí, doctor, acércate! Mírame bien, reconóceme. ¿Hasta cuándo he de esperarte?

Acércate a mí; levántame hasta la cabina de tu helicóptero. Yo te invitaré el licor de mil savias diferentes; la vida de mil plantas que cultivé en siglos, desde el pie de las nieves hasta los bosques donde tiene sus guaridas los osos salvajes.

Curaré tu fatiga que a veces te nubla como bala de plomo; te recrearé con la luz de las cien flores de quinua, con la imagen de su danza al soplo de los vientos; con el pequeño corazón de la calandria en que se retrata el mundo, te refrescaré con el agua limpia que canta y que yo arranco de la pared de los abismos que tiemplan con su sombra a nuestras criaturas.

¿Trabajaré siglos de años y meses para que alguien que no me conoce y a quien no conozco me corte la cabeza con una máquina pequeña?

No, hermanito mío. No ayudes a afilar esa máquina contra mí, acércate, deja que te conozca, mira detenidamente mi rostro, mis venas, el viento que va de mi tierra a la tuya es el mismo; el mismo viento respiramos; la tierra en que tus máquinas, tus libros y tus flores cuentas, baja de la mía, mejorada, amansada.

Que afilen cuchillos, que hagan tronar zurriagos; que amasen barro para desfigurar nuestros rostros; que todo eso hagan.

No tememos a la muerte, durante siglos hemos ahogado a la muerte con nuestra sangre, la hemos hecho danzar en caminos conocidos y no conocidos.

Sabemos que pretenden desfigurar nuestros rostros con barro; mostrarnos así, desfigurados, ante nuestros hijos para que ellos nos maten.

No sabemos bien qué ha de suceder. Que camine la muerte hacia nosotros; que vengan esos hombres a quienes no conocemos. Los esperaremos en guardia, somos hijos del padre de todos los ríos, del padre de todas las montaña.s ¿Es que ya no vale nada el mundo, hermanito doctor?

No contestes que no vale. Más grande que mi fuerza en miles de años aprendida; que los músculos de mi cuello en miles de meses, en miles de años fortalecidos, es la vida, la eterna vida, el mundo que no descansa, que crea sin fatiga; que pare y forma como el tiempo, sin fin y sin principio.

TREMER (KATATAY)

Dizem que treme a sombra do meu povoado;
Está tremendo porque tocou a triste sombra do coração
Das mulheres.
Não tremas, dor, dor!
A sombra dos condores se aproxima!
A que vem a sombra?
Vem em nome das montanhas sagradas
ou em nome do sangue de Jesus
– Não tremas; não fique tremendo;
não é sangue; não são montanhas;
é o resplendor do Sol que chega nas plumas dos Condores.
– Tenho medo, pai meu.
O Sol queima; queima o gado, queima as semeaduras.
Dizem que nos cerros longínquos
Que nos bosques sem fim,
Uma esfomeada serpente,
Serpente deusa, filho do Sol, dourada,
Está buscando homens.
– Não é Sol, é o coração do Sol,
seu resplendor,
seu poderoso, seu alegre resplendor,
que vem na sombra dos olhos dos condores.
Não é o Sol, é uma luz,
Levanta-te, fique de pé; receba esse olho sem limites!
trema com sua luz;
sacuda-te como as árvores da grande selva,
comece a gritar.
Formem uma só sombra, homens, homens do meu povoado;
tremam com a luz que chega
Bebam o sangue áureo da serpente de deus.
O sangue ardente chega ao olho dos condores,
carrega os céus, os faz dançar,
desamarrar e parir, criar.
Cria tu, pai meu, vida;
homem, semelhante, meu, querido.
TEMBLAR (KATATAY)

Dicen que tiembla la sombra de mi pueblo;
Está temblando porque ha tocado la triste sombra del corazón
De las mujeres.
¡No tiembles, dolor, dolor!
¡La sombra de los cóndores se acerca!
¿A qué viene la sombra?
¿Viene en nombre de las montañas sagradas
o a nombre de la sangre de Jesús
-No tiembles; no estés temblando;
no es sangre; no so montañas;
es el resplandor del Sol que llega en las plumas de los Cóndores.
-Tengo miedo, padre mío.
El Sol quema; quema el ganado, quema las sementeras.
Dicen que en los cerros lejanos
Que en los bosques sin fin,
Una hambrienta serpiente,
Serpiente diosa, hijo del Sol,dorada,
Está buscando hombres.
-No es Sol, es el corazón del Sol,
su resplandor,
su poderoso, su alegre resplandor,
que viene en la sombra de los ojos de los cóndores.
No es el Sol, es una luz,
¡Levántate, ponte de pie; recibe ese ojo sin límites!
tiembla con su luz;;
sacúdete con los árboles de la gran selva,
empieza a gritar.
Formen una sola sombra, hombres, hombres de mi pueblo;
todos juntos
tiemblen con la luz que llega
Beban la sangre áurea de la serpiente de dios.
La sangre ardiente llega al ojo de los cóndores,
carga los cielos, los hace danzar,
desatarse y parir, crear.
Crea tú, padre mío, vida;
hombre, semejante, mío, querido.

AO NOSSO PAI CRIADOR TÚPAC AMARU

A Dona Cayetana, minha mãe índia, que me protegeu com suas lágrimas e sua ternura quando eu era menino órfão alojado em uma casa hostil e estranha. Aos comunitários dos quatro grupos indígenas de Puquio em quem senti pela primeira vez a força e a esperança.

Túpac Amaru, filho do Deus Serpente; feito com a neve do Salcantay ; tua sombra chega ao profundo coração como a sombra do deus montanha, sem cessar e sem limites.
Teus olhos de serpente deus que brilhavam como o cristalino de todas as águias, puderam ver o porvir, puderam ver distante. Aqui estou, fortalecido por teu sangue, não morto, gritando todavia.
Estou gritando, sou teu povo; tu fizeste de novo minha alma; minhas lágrimas as fizeste de novo; minha ferida ordenaste que não se fechasse, que doesse cada vez mais. Desde o dia em que tu falaste, desde o tempo em que lutaste com o acerado e sanguinário espanhol, desde o instante em que lhe esculpiste a cara; desde quando tu fervente sangue se derramou sobre afervente terra, em meu coração se apagou a paz e a resignação. Não há senão fogo, não há senão ódio de serpente contra os demônios, nossos amos.

Está cantando o rio,
está chorando a calandria ,
está dando voltas no vento;
dia e noite a palha da estepe vibra;
nosso rio sagrado está bramindo;
nas cristas dos nossos Wamanis montanhas , em seus dentes, a neve goteja e brilha.
Onde estás desde que te mataram por nós?
Pai nosso, escuta atentamente a voz dos nossos rios; escuta às temíveis árvores da grande selva; o canto endemoniado, alvíssimo do mar; escute-os, pai meu, Serpente Deus. Estamos vivos; todavia somos! Do movimento dos rios e das pedras, da dança das árvores e montanhas, de seu movimento, bebemos sangue poderoso, cada vez mais forte. Nós estamos levantando, por tua causa, recordando teu nome e tua morte!
Nos povos, com seus corações pequeninhos, estão chorando os meninos.
Nas punas , sem roupa, sem chapéu, sem abrigo, quase cegos,
os homens estão chorando, mais triste,
mais tristemente que os meninos.

Sob a sombra de alguma árvore, todavia chora o
homem, Serpente Deus,
perseguido, como filas de piolhos,
mais ferido que em seu tempo;
escuta a vibração do meu corpo!
Escuta o frio do meu sangue, seu tremor gelado.
Escuta sobre a árvore de lambras o canto da pomba abandonada, nunca amada;
o pranto doce dos não caudalosos rios, dos mananciais que suavemente brotam ao mundo.
Somos ainda, vivemos!
De tua imensa ferida, de tua dor que ninguém haveria podido conter, se levanta para nós a ira que fervia em suas veias. Temos de nos alçar já, pai, irmão nosso, meu Deus Serpente. Já não temos medo ao raio de pólvora dos senhores, às balas e à metralha, já não lhes tememos tanto. Somos todavia! Sussurrando teu nome, como os rios crescentes e o fogo que devora a palha madura, como as multidões infinitas das formigas selváticas, temos de nos arrojar, até que nossa terra seja terra verdadeiramente nossa terra e nossos povos.
Escuta; pai meu, Deus Serpente, escuta;
as balas estão matando,
as metralhadoras estãoarrebentando as veias,
os sabres deferro estão cortando carne humana;
os cavalos, com suas ferragens, com seus loucos e pesados cascos, minha cabeça, meu estômago está arrebentando,
aqui e em todas as partes;
sobre o lombo gelado das colinas de Cerro de Pasco,
nas lhanuras frias, nos aquecidos vales da costa,
sobre a grande erva viva, entre os desertos.
Paizinho meu, Deus Serpente, teu rosto era como o grande céu, olhe-me: agora o coração dos senhores é mais espantoso, mais sujo, inspira mais ódio. Corromperam nossos próprios irmãos, lhes viraram o coração e, com eles, armados de armas que o próprio demônio dos demônios não poderia inventar e fabricar, nos matam. E, não obstante, há uma grande luz em nossas vidas! Estamos brilhando! Temos baixado nas cidades dos senhores. Desde esse lugar te falo. Temos baixado como as intermináveis filas de formigas da grande selva. Aqui estamos, contigo, chefe amado, inolvidável, eterno Amaru.
Nos tomaram nossas terras. Nossas ovelhinhas se alimentam com folhas secas que o vento arrasta, que nem o vento quer; nossa única vaca lambe agonizando o pouco sal da terra. Serpente Deus, pai nosso: em teu tempo éramos ainda donos, comunitários. Agora, como cão que foge da morte, corremos até os vales quentes. Temos nos estendido em milhares de povos estranhos, aves espavoridas.

Escuta, pai meu: desde as quebradas distantes, desde os pampas frios ou queimantes que os falsos wiraqochas nos tomaram, temos fugido e temos nos espalhado pelas quatro regiões do mundo. Há aqueles que se aferram a suas terras ameaçadas e pequenas. Eles subsistem acima, em suas querências e, como nós, tremem de ira, pensam, contemplam. Já não tememos a morte. Nossas vidas são mais frias, doem mais que a morte. Ouça, Serpente Deus: o açoite, o cárcere, o sofrimento infindável, a morte, nos fortaleceram, como a ti, irmão maior, como ao teu corpo e teu espírito. Até onde nos há de empurrar esta nova vida? A força que a morte fermenta e cria no homem não pode fazer que o homem revolva o mundo, que o sacuda?
Estou em Lima, na imensa cidade, cabeça dos falsos wiraqochas. No Pampa de Comas, sobre a areia, com minhas lágrimas, com minha força, com meu sangue, cantando, edifiquei uma casa. O rio do meu povoado, sua sombra, sua grande cruz de madeira, as gramas e arbustos que florescem, rodeando-o, estão, estão palpitando dentro dessa casa; um beijaflor dourado dança no ar, sobre o teto.
À imensa cidade dos senhores chegamos e a estamos revolvendo. Com nosso coração o alcançamos, o penetramos; com nosso regozijo não extinguido, com a relampagueante alegria do homem sofredor que tem o poder de todos os céus, com nossos hinos antigos e novos, os estamos envolvendo. Havemos de lavar algo às culpas por séculos sedimentadas nesta cabeça corrompida dos falsos wiraqochas, com lágrimas, amor ou fogo. Com o que seja! Somos milhares de milhares, aqui, agora. Estamos juntos; temos nos congregado povoado por povoado, nome por nome, e estamos estreitando esta imensa cidade que nos odiava, que nos depreciava como a excremento de cavalos. Temos que converte-la em cidade de homens que entoem os hinos das quatro regiões do nosso mundo, em cidade feliz, onde cada homem trabalhe, em imensa povoação que não odie e seja limpa, como a neve dos deuses das montanhas onde a pestilência do mal não chega jamais. Assim é, assim mesmo há de ser, pai meu, assim mesmo há de ser, em teu nome, que cai sobre a vida como uma cascata de água eterna que salta e ilumina todo o espírito e o caminho.

Tranquilo espera,
tranquilo ouve,
tranquilo contempla este mundo.
Estou bem elevando-me
Canto;
o mesmo canto entono.
Aprendo já a língua de Castela,
entendo a roda e a máquina;
com nós cresce teu nome;
filhos de wiraqochas te falam e te escutam
como o guerreiro mestre, fogo
puro que inflama, iluminando.
Vem a aurora.
Me contam que em outros povoados
os homens açoitados, os que sofriam,
são agora águias, condores de
imenso e livre voo.
Tranquilo espera.
Chegaremos mais longe que quando tu quiseste e sonhaste.
Odiaremos mais que quanto tu odiaste;
amaremos mais do que tu amaste,
com amor de pomba encantada, de calandria.
Tranquilo espera, com esse ódio e com esse amor sem sossego e sem limites, o que tu não pudeste o faremos nós.

Ao gelado lago que dorme, ao negro precipício,
à mosca azulada que vê e anuncia a morte,
à lua, às estrelas e à terra,
o suave e poderoso coração do homem;
a todo ser vivente e não vivente,
que está no mundo,
nele que alenta ou não alenta o sangue, homem ou pomba, pedra ou areia, faremos que se regozigem, que tenham luz infinita, Amaru, pai meu.
A santa morte virá só, já não lançada com fundas trançadas nem estalada pelo raio de pólvora.
O mundo será o homem, o homem o mundo, tudo à tua medida.
Baixa à terra, Serpente Deus, infunde-me teu alento; põe tuas mãos sobre a tela imperceptível que cobre o coração. Dá-me tua força, pai amado.

A NUESTRO PADRE CREADOR TÚPAC AMARU

A Doña Cayetana, mi madre índia, que me protegió con sus lágrimas y su ternura, cuando yo era un niño huérfano alojado en una casa hostil y ajena. A los comuneros de los cuatro ayllus de Puquio en quienes sentí por vez primera, la fuerza y la esperanza.

Túpac Amaru, hijo del Dios Serpiente; hecho con la nieve del Salqantay; tu sombra llega al profundo corazón como la sombra del dios montaña, sin cesar y sin límites.
Tus ojos de serpiente dios que brillaban como el cristalino de todas las águilas, pudieron ver el porvenir, pudieron ver lejos. Aquí estoy, fortalecido por tu sangre, no muerto, gritando todavía.
Estoy gritando, soy tu pueblo; tú hiciste de nuevo mi alma; mis lágrimas las hiciste de nuevo; mi herida ordenaste que no se cerrara, que doliera cada vez más. Desde él día en que tú hablaste, desde el tiempo en que luchaste con el acerado y sanguinario español, desde el instante en que le esculpiste a la cara; desde cuando tu hiviente sangre se derramó sobre la hirviente tierra, en mi corazón se apagó la paz y la resignación. No hay sino fuego, no hay sino odio de serpiente contra los demonios, nuestros amos.
Está cantando el río,
está llorando la calandria,
está dando vueltas el viento;
día y noche la paja de la estepa vibra;
nuestro río sagrado está bramando;
en las crestas de nuestros Wamanis montañas, en sus dientes, la nieve gotea y brilla.
¿En dónde estás desde que te mataron por nosostros?
Padre nuestro, escucha atentamente la voz de nuestros ríos; escucha a los temibles árboles de la gran selva; el canto endemoniado, blanquísimo del mar; escúchalos, padre mío, Serpiente Dios. ¡Estamos vivos; todavía somos! Del movimiento de los rios y las piedras, de la danza de árboles y montañas, de su movimiento, bebemos sangre poderosa, cada vez más fuerte. ¡Nos estamos levantando, por tu causa, recordando tu nombre y tu muerte!
En los pueblos, con su corazón pequeñitos, están llorando los niños.
En las punas, sin ropa, sin sombrero, sin abrigo, casi ciegos,
los hombres están llorando, más triste,
más tristemente que los niños.
Bajo la sombra de algún árbol, todavía llora el
hombre, Serpiente Dios,
perseguido, como filas de piojos,
más herido que en tu tiempo;
¡escucha la vibración de mi cuerpo!
Escucha el frio de mi sangre, su temblor helado.
Escucha sobre el árbol de lambras el canto de la paloma abandonada, nunca amada;
el llanto dulce de los no caudalosos ríos, de los mantiales que suavemente brotam al mundo.
¡Somos aún, vivimos!
De tu inmensa herida, de tu dolor que nadie habría podido cerrar, se levanta para nosotros la rabia que hervia en tus venas. Hemos de alzarnos ya, padre, hermano nuestro, mi Dios Serpiente. Ya no le tenemos miedo al rayo de pólvora de los señores, a las balas y la metralla, ya no le tememos tanto. ¡Somos todavía!Voceando tu nombre, como los ríos crecientes y el fuego que devora la paja madura, como las multitudes infinitas de las hormigas selváticas, hemos de lanzarnos, hasta que nuestra tierra sea de veras nuestra tierra y nuestros pueblos.
Escucha; padre mío, mi Dios Serpiente, escucha;
las balas están matando,
las ametralladoras están reventando las venas,
los sables de hierro están cortando carne humana;
los caballos, con sus herrajes, con sus locos y pesados cascos, mi cabeza, mi estómago está reventando,
aquí y en todas partes;
sobre el lomo helado de las colinas de Cerro de Pasco,
en las llanuras frías, en los caldeados valles de la costa,
sobre la gran yerba viva, entre los desiertos.
Padrecito mío, Dios Serpiente, tu rostro era como el gran cielo, óyeme: ahora el corazón de los señores es más espantoso, más sucio, inspira más odio. Han corrompido a nuestros propios hermanos, les han volteado el corazón y, con ellos, armados de armas que el propio demonio de los demonios no podría inventar y fabricar, nos matan. ¡Y sin embargo, hay una gran luz en nuestras vidas! ¡Estamos brillando! Hemos bajado a las ciudades de los señores. Desde allí te hablo. Hemos bajado como las interminables filasde hormigas de la gran selva. Aquí estamos, contigo, jefe amado, inolvidable, eterno Amaru.
Nos arrebataron nuestras tierras. Nuestras ovejitas se alimentan con las hojas secas que el viento arrastra, que ni el viento quiere; nuestra única vaca lame agonizando la poca sal de la tierra. Serpiente Dios, padre nuestro: en tu tiempo éramos aún dueños, comuneros. Ahora, como perro que huye de la muerte, corremos hacia los valles calientes. Nos hemos extendido en miles de pueblos ajenos, aves despavoridas.

Escucha, padre mío: desde las quebradas lejanas, desde las pampas frías o quemantes que los falsos wiraqochas nos quitaron, hemos huido y nos hemos extendido por las cuatro regiones del mundo. Hay quienes se aferran a sus tierras amenazadas y pequeñas. Ellos se han quedado arriba, en sus querencias y, como nosotros, tiemblan de ira, piensan, contemplan. Ya no tememos a la muerte. Nuestras vidas son más frías, duelen más que la muerte. Escucha, Serpiente Dios: el azote, la cárcel, el sufrimiento inacabable, la muerte, nos han fortalecido, como a ti, hermano mayor, como a tu cuerpo y tu espíritu. ¿Hasta donde nos ha de empujar esta nueva vida? La fuerza que la muerte fermenta y cría en el hombre ¿no puede hacer que el hombre revuelva el mundo, que lo sacuda?
Estoy en Lima, en el inmenso pueblo, cabeza de los falsos wiraqochas. En la Pampa de Comas, sobre la arena, con mis lágrimas, con mi fuerza, con mi sangre, cantando, edifiqué una casa. El río de mi pueblo, su sombra, su gran cruz de madera, las yerbas y arbustos que florecen, rodeándolo, están, están palpitando dentro de esa casa; un picaflor dorado juega en el aire, sobre el techo.

Al inmenso pueblo de los señores hemos llegado y lo estamos removiendo. Con nuestro corazón lo alcanzamos, lo penetramos; con nuestro regocijo no extinguido, con la relampagueante alegría del hombre sufriente que tiene el poder de todos los cielos, con nuestros himnos antiguos y nuevos, lo estamos envolviendo. Hemos de lavar algo las culpas por siglos sedimentadas en esta cabeza corrompida de los falsos wiraqochas, con lágrimas, amor o fuego. ¡Con lo que sea! Somos miles de millares, aquí, ahora. Estamos juntos; nos hemos congregado pueblo por pueblo, nombre por nombre, y estamos apretando a esta inmensa ciudad que nos odiaba, que nos despreciaba como a excremento de caballos. Hemos de convertirla en pueblo de hombres que entonen los himnos de las cuatro regiones de nuestro mundo, en ciudad feliz, donde cada hombre trabaje, en inmenso pueblo que no odie y sea limpio, como la nieve de los dioses montañas donde la pestilencia del mal no llega jamás. Así es, así mismo ha de ser, padre mío, así mismo ha de ser, en tu nombre, que cae sobre la vida como una cascada de agua eterna que salta y alumbra todo el espíritu y el camino.

Tranquilo espera,
tranquilo oye,
tranquilo contempla este mundo.
Estoy bien ¡alzándome!
Canto;
mismo canto entono.
Aprendo ya la lengua de Castilla,
entiendo la rueda y la máquina;
con nosotros crece tu nombre;
hijos de wiraqochas te hablan y te escuchan
como el guerrero maestro, fuego
puro que enardece, iluminando.
Viene la aurora.
Me cuentan que en otros pueblos
los hombre azotados, los que sufrían,
son ahora águilas, cóndores de
inmenso y libre vuelo.
Tranquilo espera.
Llegaremos más lejos que cuanto tú quisiste y soñaste.
Odiaremos más que cuanto tú odiaste;
amaremos más de lo que tú amaste,
con amor de paloma encantada, de calandria.
Tranquilo espera, con ese odio y con ese amor sin sosiego y sin límites, lo que tú no pudiste lo haremos nosotros.

Al helado lago que duerme, al negro precipicio,
a la mosca azulada que ve y anuncia la muerte,
a la luna, las estrellas y la tierra,
el suave y poderoso corazón del hombre;
a todo ser viviente y no viviente,
que está en el mundo,
en el que alienta o no alienta la sangre, hombre o paloma, piedra o arena, haremos que se regocijen, que tengan luz infinita, Amaru, padre mío.
La santa muerte vendrá sola, ya no lanzada con hondas trenzadas ni estallada por el rayo de pólvora.
El mundo será el hombre, el hombre el mundo, todo a tu medida.
Baja a la tierra, Serpiente Dios, infúndeme tu aliento; pon tus manos sobre la tela imperceptible que cubre el corazón. Dame tu fuerza, padre amado.

ESPERGESIA

Eu nasci num dia
que Deus esteve enfermo.

Todos sabem que vivo,
que sou mau; e não sabem
do dezembro desse janeiro.
Pois eu nasci num dia em
que Deus esteve enfermo.

Há um vazio
em meu ar metafísico
que ninguém há de apalpar:
o claustro de um silêncio
que falou à flor do fogo.

Eu nasci num dia
que Deus esteve enfermo.

Irmão, escuta, escuta…
Está bem. E que não me vá
sem levar dezembros,
sem deixar janeiros.
Pois eu nasci num dia em
que Deus esteve enfermo.

Todos sabem que vivo,
que mastigo… E não sabem
por que em meu verso rangem,
obscura insipidez de féretro,
ásperos ventos
desenroscados da Esfinge
inquisidora do Deserto.

Todos sabem… E não sabem
que a Luz é tísica,
e a Sombra gorda…
E não sabem que o Mistério sintetiza…
que ele é a corcova
musical e triste que a distância denuncia
o passo meridiano dos limites aos Limites.

Eu nasci num dia
que Deus esteve enfermo,
grave.

Yo nací un día
que Dios estuvo enfermo.

Todos saben que vivo,
que soy malo; y no saben
del diciembre de ese enero.
Pues yo nací un día
que Dios estuvo enfermo.

Hay un vacío
en mi aire metafísico
que nadie ha de palpar:
el claustro de un silencio
que habló a flor de fuego.
Yo nací un día
que Dios estuvo enfermo.

Hermano, escucha, escucha…
Bueno. Y que no me vaya
sin llevar diciembres,
sin dejar eneros.
Pues yo nací un día
que Dios estuvo enfermo.

Todos saben que vivo,
que mastico… Y no saben
por quê en mi verso chirrían,
oscuro sinsabor de féretro,

luyidos vientos
desenroscados de la Esfinge
preguntona del Desierto.

Todos saben… Y no saben
que la Luz es tísica,
y la Sombra gorda…
Y no saben que el Misterio sintetiza…

que él es la joroba
musical y triste que a distancia denuncia
el paso meridiano de Ias lindes a las Lindes,

Yo nací un día
que Dios estuvo enfermo,
grave.

EPÍSTOLA AOS TRANSEUNTES

Retomo meu dia de coelho
minha noite de elefante em descanso.

E, comigo, digo:
esta é minha imensidão bruta, a cântaros,
este é meu grato peso, que me buscara embaixo para pássaro;
este é meu braço
que por si próprio recusou ser asa,
estas são minhas sagradas escrituras,
estes meus assustados testículos.

Lúgubre ilha me iluminará continental,
enquanto o capitólio se apoie em meu íntimo desmoronamento
e a assembleia em lanças encerre meu desfile.

Porém quando eu morra
de vida e não de tempo,
quando cheguem a duas minhas duas maletas
este há de ser meu estômago em que coube minha lâmpada em pedaços,
esta aquela cabeça que expiou os tormentos do círculo em meus passos,
estes esses vermes que o coração contou por unidades,
este há de ser meu corpo solidário
pelo qual vela a alma individual; este há de ser
meu umbigo em que matei meus piolhos natos,
esta minha coisa coisa, minha coisa tremebunda.

Entretanto, convulsiva, asperamente
convalesce meu freio,
sofrendo como sofro da linguagem direta do leão;
e, posto que existi entre duas propriedades de tijolo,
convalesço eu mesmo, sorrindo de meus lábios.

EPÍSTOLA A LOS TRANSEÚNTES

Reanudo mi día de conejo
mi noche de elefante en descanso.

Y, entre mí, digo:
ésta es mi inmensidad en bruto, a cántaros,
éste es mi grato peso, que me buscara abajo para pájaro;
éste es mi brazo
que por su cuenta rehusó ser ala,
éstas son mis sagradas escrituras,
éstos mis alarmados compañones.

Lúgubre isla me alumbrará continental,
mientras el capitolio se apoye en mi íntimo derrumbe
y la asamblea en lanzas clausure mi desfile.

Pero cuando yo muera
de vida y no de tiempo,
cuando lleguen a dos mis dos maletas,
éste ha de ser mi estómago en que cupo mi lámpara en pedazos,
ésta aquella cabeza que expió los tormentos del círculo en mis pasos,
éstos esos gusanos que el corazón contó por unidades,
éste ha de ser mi cuerpo solidario
por el que vela el alma individual; éste ha de ser
mi ombligo en que maté mis piojos natos,
ésta mi cosa cosa, mi cosa tremebunda.

En tanto, convulsiva, ásperamente
convalece mi freno,
sufriendo como sufro del lenguaje directo del león;
y, puesto que he existido entre dos potestades de ladrillo,
convalezco yo mismo, sonriendo de mis labios.

O BOM SENTIDO

Há, mãe, um lugar no mundo, que se chama Paris. Um lugar muito grande e longínquo e outra vez grande.

Minha mãe me ajusta o capuz do abrigo, não porque começa a nevar, mas para que comece a nevar.

A mulher de meu pai está enamorada de mim, vindo e avançando de costas ao meu nascimento e de peito à minha morte. Que sou duas vezes seu: pelo adeus e pelo regresso. Encerro-a, ao retornar. Por isso me deram tanto seus olhos, justa de mim, em flagrante de mim, acontecendo-se por obras conclusas, por pactos consumados.

Minha mãe está confessa de mim, nomeada de mim? Como não dá outro tanto a meus outros irmãos? A Víctor, por exemplo, o maior, que é tão velho já, que as pessoas dizem:
Parece irmão menor de sua mãe! Foi por ele que viajei muito! Foi porque vivi mais!

Minha mãe atribui carta de princípio colorido a meus relatos de regresso. Ante minha vida de regresso, recordando que viajei durante dois corações por seu ventre, se ruboriza e se deixa cair mortalmente lívida, quando digo, no tratado da alma: Aquela noite fui feliz. Porém, mais se põe triste. Mais se pusesse triste.

— Filho, como estás velho!

E desfila pela cor amarela a chorar, porque me acha envelhecido, na lâmina da espada, na desembocadura do meu rosto. Chora de mim, se entristece de mim. Que falta fará minha mocidade, se sempre serei seu filho? Por que as mães se doem por achar envelhecidos aos seus filhos, se jamais a idade deles alcançará a delas? E por que, se os filhos, quanto mais se consomem, mais se aproximam dos pais? Minha mãe chora porque estou velho de meu tempo e porque nunca chegarei a envelhecer do seu!

Meu adeus partiu de um ponto de seu ser, mais externo que o ponto de seu ser ao qual retorno. Sou, por causa do excessivo prazo de meu retorno, mais o homem ante minha mãe que o filho ante minha mãe. Ali reside a candura que hoje nos alumbra com três chamas. Digo-lhe então até que me calo:

— Há, mãe, no mundo um lugar que se chama Paris. Um lugar muito grande e muito longínquo e outra vez grande.

A mulher do meu pai, ao ouvir-me, almoça e seus olhos mortais descem suavemente por meus braços.

EL BUEN SENTIDO

Hay, madre, un sitio en el mundo, que se llama París. Un sitio muy grande y lejano y otra vez grande.

Mi madre me ajusta el cuello del abrigo, no porque empieza a nevar, sino para que empiece a nevar.

La mujer de mi padre está enamorada de mí, viniendo y avanzando de espaldas a mi nacimiento y de pecho a mi muerte. Que soy dos veces suyo: por el adiós y por el regreso. La cierro, al retornar. Por eso me dieran tanto sus ojos, justa de mí, in fraganti de mí, aconteciéndose por obras terminadas, por pactos consumados.

Mi madre está confesa de mí, nombrada de mí? Cómo no da otro tanto a mis otros hermanos? A Víctor, por ejemplo, el mayor, que es tan viejo ya, que las gentes dicen: Parece hermano menor de su madre! Fuere por lo que yo he viajado mucho! ¡Fuere porque yo he vivido más!

Mi madre acuerda carta de principio colorante a mis relatos de regreso. Ante mi vida de regreso, recordando que viajé durante dos corazones por su vientre, se ruboriza y se queda mortalmente lívida, cuando digo, en el tratado del alma: Aquella noche fui dichoso. Pero, más se pone triste. Más se pusiera triste.

—Hijo, cómo estás viejo!

Y desfila por el color amarillo a llorar, porque me halla envejecido, en la hoja de espada, en la desembocadura de mi rostro. Llora de mí, se entristece de mí. Qué falta hará mi mocedad, si siempre seré su hijo? Por qué las madres se duelen de hallar envejecidos a sus hijos, si jamás la edad de ellos alcanzará a la de ellas? Y por qué, si los hijos, cuanto más se acaban, más se aproximan a los padres? Mi madre llora porque estoy viejo de mi tiempo y porque nunca llegaré a envejecer del suyo!

Mi adiós partió de un punto de su ser, más externo que el punto de su ser al que retorno. Soy, a causa del excesivo plazo de mi vuelta, más el hombre ante mi madre que el hijo ante mi madre. Allí reside el candor que hoy nos alumbra con tres llamas. Le digo entonces hasta que me callo:

—Hay, madre, en el mundo un sitio que se llama París. Un sitio muy grande y muy lejano y otra vez grande.

La mujer de mi padre, al oírme, almuerza y sus ojos mortales descienden suavemente por mis brazos.

HOJE ME AGRADA A VIDA MUITO MENOS…

Hoje me agrada a vida muito menos,
porém sempre me agrada viver: já o dizia.
Quase toquei a parte de meu todo e me contive
com um tiro na língua por traz da minha palavra.

Hoje me apalpo o queixo em retirada
e nestas momentâneas vestes eu me digo:
Tanta vida e jamais!
Tantos anos e sempre minhas semanas!…
Meus pais enterrados com sua lápide
e seu triste estirão que não se acabou;
de corpo inteiro irmãos, meus irmãos,
e, enfim, meu ser estático e encoberto por um manto.

Me agrada a vida enormemente
porém, desde logo,
com minha morte querida e meu café
e vindo as castanheiras frondosas de Paris
e dizendo:
É um olho este, aquele; uma frente esta, aquela… E repetindo:
Tanta vida e jamais me falha a toada!
Tantos anos e sempre, sempre, sempre!

Diz manto, diz
todo, parte, ânsia, diz quase, por não chorar.
Que é verdade que sofri naquele hospital que fica ao lado
e está bem e está mal haver olhado
de baixo para cima meu organismo.

Me agradará viver sempre, assim fosse de barriga,
porque, como ia dizendo e o repito,
tanta vida e jamais! E tantos anos,
e sempre, muito sempre, sempre, sempre!

HOY ME GUSTA LA VIDA MUCHO MENOS…

Hoy me gusta la vida mucho menos,
pero siempre me gusta vivir: ya lo decía.
Casi toqué la parte de mi todo y me contuve
con un tiro en la lengua detrás de mi palabra.

Hoy me palpo el mentón en retirada
y en estos momentáneos pantalones yo me digo:
¡Tánta vida y jamás!
¡Tántos años y siempre mis semanas!…
Mis padres enterrados con su piedra
y su triste estirón que no ha acabado;
de cuerpo entero hermanos, mis hermanos,
y, en fin, mi ser parado y en chaleco.

Me gusta la vida enormemente
pero, desde luego,
con mi muerte querida y mi café
y viendo los castaños frondosos de París
y diciendo:
Es un ojo éste, aquél; una frente ésta, aquélla… Y repitiendo:
¡Tánta vida y jamás me falla la tonada!
¡Tántos años y siempre, siempre, siempre!

Dije chaleco, dije
todo, parte, ansia, dije casi, por no llorar.
Que es verdad que sufrí en aquel hospital que queda al lado
y está bien y está mal haber mirado
de abajo para arriba mi organismo.

Me gustará vivir siempre, así fuese de barriga,
porque, como iba diciendo y lo repito,
¡tánta vida y jamás! ¡Y tántos años,
y siempre, mucho siempre, siempre, siempre!

UMA JANELA

Volto a contar meus dedos.
(A flor gelada, a desconhecida cabeça que
me espreita se pendura e dá vozes),
eu olho as paredes e seus frutos redondos e velozes,
faço cálculos, somo pedras, cinzas, nuvens
e árvores que pespeguem os homens
e pérolas arrancadas de malignos tanques
ou de negros pulmões sepultados
e horrivelmente vivos.

A aranha que desce a passo humano me conhece,
dona é de um pedaço do meu rosto,
lá aninha, ali canta inchada e doce
entre sua seda verde e seus cachos.
Fora, região onde a noite cresce,
eu te temo,
onde a noite cresce e cai em grossas gotas,
em mortais relâmpagos.
Fora, o pesado hálito do boi,
a velha febre de asas vermelhas,
a noite que cai
como um impulso obscuro sobre um peito.

UNA VENTANA

Vuelvo a contar mis dedos.
(La flor helada, la desconocida cabeza que
me acecha se descuelga y da voces),
yo miro las paredes y sus frutos redondos y veloces,
hago cálculos, sumo piedras, cenizas, nubes
y árboles que persiguen a los hombres
y perlas arrancadas de malignos estanques
o de negros pulmones sepultados
y horriblemente vivos.

La araña que desciende a paso humano me conoce,
dueña es de un rincón de mi rostro,
allá anida, allí canta hinchada y dulce
entre su seda verde y sus racimos.
Afuera, región donde la noche crece,
yo le temo,
donde la noche crece y cae en gruesas gotas,
en mortales relámpagos.
Afuera, el pesado aliento del buey,
la vieja fiebre de alas rojas,
la noche que cae
como un resorte oscuro sobre un pecho.

INCORPÓREO PASSEIO

incorpóreo passeio do sol à umbria
água música na sombra vivente
atravesso a afiada vagina
que me guia da cegueira à luz

sob a alta cúpula sonora
neste colossal simulacro de ninho
toco o ventre marinho com meu ventre
registro minuciosamente meu corpo
revolvo meu sentimentos
estou viva

INCORPÓREO PASEO

incorpóreo paseo del sol a lo umbrío
agua música en la sombra viviente
atravieso la afilada vagina
que me guia de la cegueira a la luz

bajo la alta cúpula sonora
en este colossal simulacro de nido
toco el vientre marino con mi vientre
registro minuciosamente mi cuerpo
hurgo mis sentimientos
estoy viva

MINHA CABEÇA

minha cabeça como uma grande canastra
leva sua pesca

deixa passar a água minha cabeça

minha cabeça dentro de outra cabeça
e mais adentro ainda
a não minha cabeça

minha cabeça cheia de água
de rumores e ruinas
seca suas negras cavidades
sob um sol semivivo

minha cabeça no mais cru inverno
dentro de outra cabeça
rebrota

MI CABEZA

mi cabeza como una gran canasta
lleva su pesca

deja passar el agua mi cabeza

mi cabeza dentro de outra cabeza
y más adentro aun
la no mía cabeza

mi cabeza llena de agua
de rumores y ruinas
seca sus negras cavidades
bajo un sol semivivo

mi cabeza en el más crudo invierno
dentro de outra cabeza
retoña