Editorial

Voltamos com novas edições da BABEL abrindo a série com uma imagem emblemática da tragédia que foi o assassínio do Rio Doce pela empresa Samarco, atingindo habitantes, afetando a vida de indígenas e ribeirinhos e devastando a natureza em mais um desastre anunciado e perpetrado pela irresponsabilidade com que empresários e governantes lidam com a coisa pública no país.

Trata-se de rotina se pensarmos na devastação continuada da Amazônia, através do desmatamento para retirada de madeira comercial de forma descontrolada, criação de gado ou plantio de soja sem respeito a normas de proteção do meio ambiente ou para implantação de hidrelétrica como Belo Monte, aniquilando tribos indígenas e assassinando agricultores lá ou em Mato Grosso que estão no caminho desses interesses que, agora, com as mudanças das normas, avançam ainda mais sobre as terras indígenas e ampliam os conflitos agrários.

Sob esse aspecto veja-se a medida provisória 759 como exemplo de tantas outras que têm sido aplicadas: duramente criticada pelo MPF e conhecida como a “MP da grilagem” ela altera as normas sobre a regularização fundiária em todo o país e, na prática, permite a legalização de áreas de até 2.500 hectares, sinalizando que a medida favorecerá grileiros e grandes donos de terras, aprofundando a concentração de terras e, assim, os conflitos no campo.

É notável como o agronegócio se alastrou pelo país e se associou de forma eficiente com agentes do sistema financeiro rentista, multinacionais, grandes empreiteiras e famílias donas das mídias, envolvendo políticos e os mais diversos agentes de Estado, com a eficiente participação togada para criar uma hegemonia que levou à instalação efetiva de um Estado de Exceção, naquela acepção refletida por Agamben ou para reiterar, como na VIII das Teses sobre o conceito de história, de Benjamin, que o “estado de exceção” é a regra.

O objetivo mais explícito disso, para vender o país, tem sido o de passar por cima do rascunho de democracia que vinha se desenhando após a ditadura, e destruir todo o avanço democrático que levou à Constituição de 1988, restabelecendo uma forma de Estado que se assemelha mais àquele do tempo da escravatura, evidenciado na revogação ampla de direitos sociais e na consolidação de um modelo extrativista e de acumulação de mais valia que fará o país ainda mais atrasado e miserável do que já é, tendo atualmente a fome e miséria retornado aos índices de 2000, mantido o habitual analfabetismo de 75% da população que o distancia da noção de civilização e expõe com crueza sua realidade de ser uma grande fazenda.

Em relação à hegemonia estabelecida não é excessivo reiterar que tudo é feito com naturalidade teatral cínica que prescinde de ensaio pois essa corja, que estaria impedida de agir se houvesse um Estado de Direito efetivo, o faz à vontade manipulando  o medo instalado nas mentes das massas compostas por mais de 14 milhões de desempregados  e outros milhões de ignorantes que não têm a mínima noção do que está sendo perpetrado.

Apesar dessa continuada devastação há muita revolta contra esse estado de coisas absurdo e teatral, tornando impositivo que este retorno de BABEL enverede pela questão, daí as primeiras partes das edições da revista serem compostas por antologias de poemas/poetas contemporâneos que não têm silenciado, se somando às inúmeras manifestações e protestos que têm tomado as ruas, daí o título “Poesia e revolta contra o Estado de Exceção agrícola”, com poemas que a revista seleciona contra esse governo de legumes.

A primeira edição se abre com “As cento e onze picas”, que se refere ao Massacre do Carandiru, ocorrido em 2/10/1992. O poema não corresponderia exatamente a esse critério do contemporâneo mencionado, desse agora-agora do pós-golpe que efetivou a exceção ainda que sempre efetiva, pois está aí na ausência incólume de julgamento dos crimes cometidos pela ditadura, se não fosse o fato de que, em setembro passado, o TJ de SP, a dias de completar 24 anos do fato, em setembro/2016, anulou todos os júris que condenaram os policiais militares envolvidos, determinando, em abril/2017, novo julgamento, afirmando a tendência habitual, “normal”, típica do Estado de Exceção de procrastinar ou não responsabilizar julgando.

É incontestável que o direito não se aplica à sociedade, com efeitos nefastos nas periferias, na existência rotineira de mortes, torturas, invasões de propriedades, com milhares de pessoas abandonadas ao vazio jurídico habilmente manipulado pelos governantes e que impõe aos escritores aquela pecha assinalada por Silviano Santiago de que estamos condenados a uma “literatura anfíbia”, essa que se lê de poema em poema pelos parcos alfabetizados e que ecoa em BABEL.

A revista teve 6 edições de 2000 a 2004 e em 2009 retornou para nova série após premiação em primeiro lugar entre 170 projetos em edital do MinC, com a proposta de realizar um mapeamento da poesia contemporânea brasileira por temas. Essa série teve 6 edições, com amplo e abrangente conselho editorial, focando a poesia na Era Lula e respondendo a questões sobre como os poetas veriam o país; o local; a questão das fronteiras geográficas, linguísticas, sociais; a relação de si com o outro social que os conformaria; a relação com um outro nacional, o indígena, e ao fim uma edição com ensaios sobre esse conjunto.

Esgotada essa experiência e passado mais um período, a revista retorna, em mais um paradoxo, desta vez com proposta premiada pelo Governo do Estado de São Paulo através de um edital de fomento, o ProAc, que permitirá a edição de mais 3 edições retomando a experiência editorial, inclusive de formato, da primeira série.

Além dos poemas contra o Estado de Exceção, a primeira edição enfoca também a poesia crítica de Celso de Alencar, conhecido apenas entre poucos poetas e resgata um livro quase esquecido de Geraldo Ferraz, destacando seus impulsos de combater a barbárie, que se fecha com a exaltação da cidade de Gernika, tal como a ela se referem seus habitantes, contra a devastação causada pelo bombardeio nazista, similar à devastação causada no Rio Doce…

A segunda edição tem como destaque um dossiê com poetas peruanos, abrindo-se com Óscar Limache, que tem se empenhado em traduzir brasileiros no Peru, e continuando com Alberto Hidalgo, Antonio Cisneros, Blanca Varela, Cesar Vallejo, José María Arguedas, José María Eguren, José Watanabe Varas e Manuel Scorza. Publicamos poemas da japonesa Akiko Yosano e uma entrevista e poemas do poeta uruguaio que vive em São Paulo, Alfredo Fressia, cujo tema é a condição homossexual na terceira idade. Além de poemas contra o Estado de Exceção, a edição apresenta também um poema de Fernando Arrabal sobre Niemeyer e um desenho do arquiteto, feito para o escritor e artista espanhol.

A terceira edição tem como destaque um dossiê sobre a poeta Leonor Scliar-Cabral, atualmente com 88 anos, que se notabilizou com a tradução e escrita poética inspiradas na tradição sefardita, mas que tem também um excelente livro intitulado De senectute erotica, em que, tal como Alfredo Fressia, pensa a vida erótica na terceira idade. Nessa edição também publicamos um ensaio de Susana Scramim cujo tema é a reflexão sobre poesia e revolta no momento presente, percorrendo em sua análise os poemas publicados nas edições da BABEL.