EPÍSTOLA AOS POETAS QUE VIRÃO

Talvez amanhã os poetas perguntem
por que não celebramos a graça das mulheres;
talvez amanhã os poetas perguntem
por que nossos poemas
eram largas avenidas
por onde vinha a ardente cólera.

Eu respondo:
por todas partes ouvíamos o pranto,
por todas partes nos sitiava um muro de ondas negras.
Seria a Poesia
uma solitária coluna de sereno?
Tinha que ser um relâmpago perpétuo.

Enquanto alguém padeça,
a rosa não poderá ser bela;
enquanto alguém olhe o pão com inveja,
o trigo não poderá dormir;
enquanto chova sobre o peito dos mendigos,
meu coração não sorrirá.
Matais a tristeza, poetas.
Matemos a tristeza com um pau.
Não digais o romance dos lírios.
Há coisas mais altas
que chorar amores perdidos:
o rumor de um povo que desperta
é mais belo que o sereno!

O metal resplandecente de sua cólera
é mais belo que a espuma!
Um Homem Livre
é mais puro que o diamante!

O poeta libertará o fogo
de seu cárcere de cinzas.
O poeta acenderá a fogueira
de onde se queimará este mundo sombrio.

EPÍSTOLA A LOS POETAS QUE VENDRÁN

Tal vez mañana los poetas pregunten
por qué no celebramos la gracia de las muchachas;
tal vez mañana los poetas pregunten
por qué nuestros poemas
eran largas avenidas
por donde venía la ardiente cólera.

Yo respondo:
por todas partes oíamos el llanto,
por todas partes nos sitiaba un muro de olas negras.
¿Iba a ser la Poesía
una solitaria columna de rocío?
Tenía que ser un relámpago perpetuo.

Mientras alguien padezca,
la rosa no podrá ser bella;
mientras alguien mire el pan con envidia,
el trigo no podrá dormir;
mientras llueva sobre el pecho de los mendigos,
mi corazón no sonreirá.
Matad la tristeza, poetas.
Matemos a la tristeza con un palo.
No digáis el romance de los lirios.
Hay cosas más altas
que llorar amores perdidos:
el rumor de un pueblo que despierta
¡es más bello que el rocío!

El metal resplandeciente de su cólera
¡es más bello que la espuma!
Un Hombre Libre

CANTO AOS MINEIROS DA BOLÍVIA (1952)

Há que se viver ausente de si mesmo,
há que envelhecer em plena infância,
há que se chorar de joelhos diante de um cadáver
para compreender que noite
povoava o coração dos mineiros.

Eu não conhecia
a estatura melancólica da água,
até que uma tarde, no outono,
subi a El Alto, em La Paz,
e contemplei os mineiros ascendendo ao porvir
pela escada de suas balas fulgurantes.
Como esquecer os trabalhadores
lutando pela vida nos fuzis!
Como esquecer os ausentes
combatendo, de memória, nos subúrbios!

Observei suas casas
edificadas sobre o trovão,
entrei em suas vidas como o carvão ardendo,
toquei seus corpos
capazes de conter ódio e relâmpagos,
quando era todavia a idade inclinada de suas frentes.

Eu fui à Bolívia no outono do tempo.
Perguntei pela Felicidade.
Não respondeu ninguém.
Perguntei pela Alegria.
Não respondeu ninguém.
Perguntei pelo Amor.
Uma ave
caiu sobre meu peito com as asas incendiadas.
Ardia tudo no silêncio.
Nas punas até o silêncio é de neve.

Compreendi que o estanho
era
uma
longa
lágrima
petrificada
sobre o rosto espantado da Bolívia.
Nada valia o homem!
A ninguém importava se sob sua camisa
existia um corpo, um túnel ou a morte!

Em vão cavavam os mineiros
tratando de enterrar sua grande fadiga;
durante séculos buscaram seus olhos cegos no metal,
sem saber que na altura o pranto era neblina.
Não havê-lo sabido me envergonhava!
Porque nas cidades os poetas
choram a ausência nostálgica do ar,
porém não sabem o que é viver sob a chuva,
confundindo a fome com a sede,
e a sede com um pássaro pintado.

Eu fui um deles.
Eu não sabia por que os rios
se secam no sonho
e certos rostos nos Andes
são puras visões melancólicas.

Até que os mineiros,
cansados de ter somente uma vida para tantas mortes,
domesticaram trovões,
nutriram-se de pedras,
beberam as chuvas,
romperam com suas mãos ajula da vida.

Em La Paz.
Era outono.
Recorde-se.
Era outono.
Vele pelos mortos – recorde-os.

O sangue derramado
-era outono-
é o ouvido secreto da terra
-no outono-
e através de seu silêncio
-era outono-
decifra a raiz o idioma futuro das flores
-no outono-
e o ar sente que seu corpo
-era outono-
acaba em verde campina.
Recorde-se.

Já o vês desde a altura.
Aqui começa
a dinastia sucessora do sereno.
À minha pátria rota me vou.
Mas antes de partir, digam-me, mineiros:
Quando verei esta luz nos olhos da América?
Até quando jogarão nos dados
a túnica sangrenta da minha pátria?
Oh, irmãos, rouxinóis verdadeiros do metal,
empresta-me vossa morte para edificar a vida!

CANTO A LOS MINEROS DE BOLIVIA (1952)

Hay que vivir ausente de uno mismo,
hay que envejecer en plena infancia,
hay que llorar de rodillas delante de un cadáver
para comprender qué noche
poblaba el corazón de los mineros.

Yo no conocía
la estatura melancólica del agua,
hasta que una tarde, en el otoño,
subí a El Alto, en La Paz,
y contemplé a los mineros ascendiendo al porvenir
por la escalera de sus balas fulgurantes.
¡Cómo olvidar a los obreros
luchando por la vida en los fusiles!
¡Cómo olvidar a los ausentes
combatiendo, de memoria, en los suburbios!

Miré sus casas
edificadas sobre el trueno,
entré a sus vidas como al carbón ardiendo,
toqué sus cuerpos
capaces de contener odio y relámpagos,
cuando era todavía la edad inclinada de sus frentes.

Yo fui a Bolivia en el otoño del tiempo.
Pregunté por la Felicidad.
No respondió nadie.
Pregunté por la Alegría.
No respondió nadie.
Pregunté por el Amor.
Un ave
cayó sobre mi pecho con las alas incendiadas.
Ardía todo en el silencio.
En las punas
hasta el silencio es de nieve.

Comprendí que el estaño
era
una
larga
lágrima
petrificada
sobre el rostro espantado de Bolivia.
¡Nada valía el hombre!
¡A nadie le importaba si bajo su camisa
existía un cuerpo, un túnel o la muerte!

En vano cavaban los mineros
tratando de enterrar su gran fatiga;
durante siglos buscaron sus ojos ciegos en el metal,
sin saber que en la altura el llanto era neblina.
¡No haberlo sabido me avergüenza!
Porque en las ciudades los poetas
lloran la ausencia nostálgica del aire,
pero no saben lo que es vivir bajo la lluvia,
confundiendo el hambre con la sed,
y la sed con un pájaro pintado.

Yo fui uno de ellos.
Yo no sabía por qué los ríos
se secan en el sueño
y ciertos rostros en los Andes
son puras miradas melancólicas.

Hasta que los mineros,
cansados de tener una sola vida para tantas muertes,
domesticaron truenos,
nutriéronse de piedras,
bebiéronse las lluvias,
rompieron con sus manos la jaula de la vida.

En La Paz.
Era otoño.
Recordadlo.
Era otoño.
Velad por los muertos -recordadlos-.

La sangre derramada
-era otoño-
es el oído secreto de la tierra
-en el otoño-
y a través de su silencio
-era otoño-
descifra la raíz el idioma futuro de las flores
-en el otoño-
y el aire siente que su cuerpo
-era otoño-
acaba en verde campanada.
Recordadlo.

Ya lo veis desde la altura.
Aquí empieza
la dinastía sucesora del rocío.
A mi patria rota me voy.
Mas antes de partir, decidme, mineros:
¿Cuándo veré esta luz en los ojos de América?
¿Hasta cuándo jugarán a los dados
la túnica sangrienta de mi patria?
Oh, hermanos, ruiseñores verdaderos del metal,
¡prestadme vuestra muerte para edificar la vida!

RESPONSO ANTE O CADÁVER DE MINHA MÃE

A este cadáver lhe falta alegria.
Que culpa tão imensa
quando a um cadáver lhe falta alegria.
Alguém quer trazer-lhe algo radiante ou agradável (eu recordo
sua felicidade de anciã comendo um bife tenro),
porém Dora ainda não regressa do mercado.

A este cadáver lhe falta alegria,
alguma alegria ainda pode entrar em sua alma
que está estendida sobre seus órgãos de pó?

Que inúteis somos
ante um cadáver que se vai tão desolado.
Já não podemos emendar nada. Alguém guarda todavia
essas diminutas maçãs de pobre
que ela confitava e em suas mãos obsequiosas
pareciam vindas de uma árvore esplêndida?

Já está se indo com seu anel de viúva.

Já está se indo, e não lhe prometas nada:
lhe provocarás uma frase sarcástica
e lapidária que, como sempre, te deixará feito um idiota.

Já está se indo com seu costume de ir dançando
pelo caminho
para mexer com o filho que levava às costas.
Onze filhos, Senhora Coelha, e nenhum sabe que diabos fazer
para que seu cadáver tenha alegria.

RESPONSO ANTE EL CADÁVER DE MI MADRE

A este cadáver le falta alegría.
Qué culpa tan inmensa
cuando a un cadáver le falta alegría.
Uno quiere traerle algo radiante o gustoso ( yo recuerdo
su felicidad de anciana comiendo un bife tierno),
pero Dora aún no regresa del mercado.

A este cadáver le falta alegría,
¿alguna alegría aún puede entrar en su alma
que está tendida sobre sus órganos de polvo?

Qué inútiles somos
ante un cadáver que se va tan desolado.
Ya no podemos enmendar nada. ¿Alguien guarda todavía
esas diminutas manzanas de pobre
que ella confitaba y en sus manos obsequiosas
parecían venidas de un árbol espléndido?

Ya se está yendo con su anillo de viuda.

Ya se está yendo, y no le prometas nada:
le provocarás una frase sarcástica
y lapidaria que, como siempre, te dejará hecho un idiota.

Ya se está yendo con su costumbre de ir bailando
por el camino
para mecer al hijo que llevaba a la espalda.
Once hijos, Señora Coneja, y ninguno sabe qué diablos hacer
para que su cadáver tenga alegría.

O LINGUADO

Sou
o gris contra o gris . Minha vida
depende de copiar incansavelmente
a cor da areia,
porém esse truque sutil
que me permite comer e enganar inimigos
me deformou. Perdi a simetria
dos animais belos, meus olhos
e minhas narinas
viraram para um mesmo lado do rosto. Sou
um pequeno monstro invisível
estendido sempre sobre o leito do mar.
As breves anchovetas que passam ao meu lado
creem que as devora
uma agitação de areia
e os grandes predadores me roçam sem perceber
meu medo. O medo circulará sempre em meu corpo
como outro sangue. Meu corpo não é grande. Sou
uma porção de órgãos enterrados na areia
e as bordas imperceptíveis da minha carne
não estão muito distantes.
Às vezes sonho que me expando
e ondulo como uma planura, sereno e sem medo, e maior
que os maiores. Sou então
toda a areia, todo o vasto fundo marinho.
EL LENGUADO

Soy
lo gris contra lo gris. Mi vida
depende de copiar incansablemente
el color de la arena,
pero ese truco sutil
que me permite comer y burlar enemigos
me ha deformado. He perdido la simetría
de los animales bellos, mis ojos
y mis narices
han virado hacia un mismo lado del rostro. Soy
un pequeño monstruo invisible
tendido siempre sobre el lecho del mar.
Las breves anchovetas que pasan a mi lado
creen que las devora
una agitación de arena
y los grandes depredadores me rozan sin percibir
mi miedo. El miedo circulará siempre en mi cuerpo
como otra sangre. Mi cuerpo no es mucho. Soy
una palada de órganos enterrados en la arena
y los bordes imperceptibles de mi carne
no están muy lejos.
A veces sueño que me expando
y ondulo como una llanura, sereno y sin miedo, y más grande
que los más grandes. Yo soy entonces
toda la arena, todo el vasto fondo marino.

CINEMA MUDO

Olhando o amor,
estendido nos pastos,
se fechas um olho terás uma estampa chinesa.

Onde está a China?
Minha mãe tinha uma janela e não pôde ver a China.

A máquina 7 passou pelo céu dizendo adeus.

Passou um amendoinzeiro vendendo amendoim. Adeus.

Não era um amendoinzeiro: desconfia das nuvens que jogam amendoins.

Baixou um cavalo
e no céu a égua espera encostada dizendo amor.

Está passando um enterro,
o morto queria ir caminhando
porém que compreenda que compreenda lhe disseram.

Lhe disseram que a greve continuava ante a tropa e a bala.

Adeus. Último adeus. Adeus plantando um pedaço de pasto.

Como te chamas? Não quer falar.

Como minha mãe quando olha por sua janela.

Não tenhas medo. Em sua memória
as éguas postergaram suas bodas de branco.
Eles estão esperando notícias
e charmoso é o ofício do carteiro sob a terra.

São brancas as ruas sob a terra?
Saúda ao meu Irmão,
que plantei um pedaço de pasto, assim lhe dizes.

CINE MUDO

Mirando el amor,
tendido en los pastos,
si cierras un ojo tendrás uma estampa china.

¿Dónde está China?
Mi madre tenía una ventana y no pudo ver China.

La máquina 7 há passado por el cielo diciendo adiós.

Pasó un manicero vendendo maní. Adiós.

No era un manicero: desconfia de las nubes que arrojan maní.

Há bajado un caballo
y en cielo la yegua espera acostada diciendo amor.

Está passando um enterro,
el muerto queria ir caminhando
pero que compreenda que compreenda le dijeron.

Le dijeron que la huelga continuaba ante la tropa y la bala.

Adiós. Último adiós. Adiós levantando un manojo de pasto.

¿Cómo te llamas? No quiere hablar.

Como mi madre cuando mira por su ventana.

No tengas miedo. En tu memoria
las yeguas han postergado su boda de blanco.
Ellos están esperando noticias
y hermoso es el oficio de cartero bajo la tierra.

¿Son blancas las calles bajo la tierra?
Saluda a mi Hermano,
que levanté un manojo de pasto, así le dices.

POEMA TRÁGICO COM DUVIDOSOS ACERTOS CÔMICOS

Minha família não tem médico
nem padre nem visitas
e todos se estendem na praia
saudáveis sob o sol de verão.

Algumas ervas nos curam os males do estômago
e a religião só entra com os sinos alvoroçando os canários.

Aqui todos morreram com uma modéstia comovedora,
meu pai, por exemplo, o lamentável Prometeu
silenciosamente picado pelo câncer mais bravo que as águias.

Agora nós
nenhum doutor ou notável
no coração de modestas tribos,
a tribo dos relojoeiros
a mais triste dos funcionários públicos
a dos taxistas
a dos donos de pensão
de vez em quando nos pomos trágicos e nos perguntamos
pela morte.

Porém hoje estamos aqui escutando o murmúrio do mar que é o morrer.

E este murmúrio nos reconcilia com o outro murmúrio do rio
por cuja margem ribeirinha andamos matando sapos sem misericórdia,
arrebentando-os com um pau sobre as pedras de um rio tão metafórico
que dá risos.

E ninguém havia na margem contemplando nossas vidas por anos
senão somente nós
os que agora descansamos bronzeados sob o verão
como que esperando o voo do garrote
sobre nossa barriga
sobre nossa cabeça
nada notável
nada notável.

POEMA TRÁGICO CON DUDOSOS LOGROS CÓMICOS

Mi familia no tiene médico
ni sacerdote ni visitas
y todos se tienden en la playa
saludables bajo el sol del verano.

Algunas yerbas nos curan los males del estómago
y la religión sólo entra con las campanas alborotando los canarios.

Aquí todos se han muerto con una modestia conmovedora,
mi padre, por ejemplo, el lamentable Prometeo
silenciosamente picado por el cáncer más bravo que las águilas.

Ahora nosotros
ninguno doctor o notable
en el corazón de modestas tribus,
la tribu de los relojeros
la más triste de los empleados públicos
la de los taxistas
la de los dueños de fonda
de vez en cuando nos ponemos trágicos y nos preguntamos
por la muerte.

Pero hoy estamos aquí escuchando el murmullo de la mar que es el morir.

Y este murmullo nos reconcilia con el otro murmullo del río
por cuya ribera anduvimos matando sapos sin misericordia,
reventándolos con un palo sobre las piedras del río tan metafórico que da risa.

Y nadie había en la ribera contemplando nuestras vidas hace años
sino solamente nosotros
los que ahora descansamos colorados bajo el verano
como esperando el vuelo del garrote
sobre nuestra barriga
sobre nuestra cabeza
nada notable
nada notable.

DA POESIA

O menino foi à sombra de sua árvore fora dos muros
onde deixava diariamente suas necessidades de intestino
E se outro menino na árvore vizinha se acocorava
e se aliviava
brotava entre ambos
a honrosa cumplicidade na depuração
do bom animal.

Desta vez, entretanto,
uma visão surpreendeu o menino, fixando-o
com estupor
embaixo de sua árvore:
no meio de uma limpeza anterior
crescia
uma nascente e trêmula plantinha.
E o estremeceu a imaginação da viagem
do pequeno guisado
ao longo de seu corpo, seu caminho indelével
incontaminado
e defendendo
em seu íntimo e delicado centro
o embrião vivo.

E na memória do menino,
com difícil contento,
começou a elevar-se para sempre
a planta mínima, teu princípio, tua verde bandeirinha,
poesia.

DE LA POESÍA

El niño entró en la sombra de su árbol de extramuros
donde dejaba diariamente sus quehaceres de intestino.
Y si otro niño en árbol vecino se acuclillaba
y se aliviaba
brotava entre ambos
la honrosa complicidad en la depuración
del buen animal.
Esta vez, sin embargo,
uma visión suspende al niño, lo fija
con estupor
bajo su árbol:
en médio de una anterior limpeza
crecía
uma incipiente y trémula plantinta.
Y lo estremeció la imaginación del viaje
de la pequena menestra
a lo largo de su cuerpo, su recorrido indemne,
incontaminado
y defendendo
en su íntimo y delicado centro
el embrión vivo.
Y en la memoria del niño,
com difícil contento,
comenzó a elevarse para siempre
la planta mínima, tu principio, tu verde banderita,
poesía.

O BOTE VELHO

Sob brilhante névoa,
de salgadas anêmonas coberto,
Amanheceu na praia,
Um bote velho.
Com areia, se vê
O lado dos seus remadores,
E na quilha verdosos
Calafateios.
Bote triste, jazente,
Pelos moluscos perfurado;
Veio de ignotos
Molhes amargos.
Apareceu na bruma
E na harmonia da aurora;
Trouxe dos recifes
Douradas conchas.
Aos seus bancos de remadores,
Às suas amarelentas cordas,
Vêm os cormorões
E as gaivotas.
Os pitorescos meninos,
Quando dormita a maré
O enchem de cordames
E de bandeiras.
Os noivos, e a tarde,
Em sua alta quilha se recostam;
E aos ventos marinhos,
De amor se beijam.
Mas o bote ruinoso
Das areias do estuário,
Anseia os distantes
Molhes dourados.
E na profunda noite,
Em fino marear iluminado,
Partiu o bote morrente
Para os botes distantes.
EL BOTE VIEJO
Bajo brillante niebla,
de saladas actinias cubierto,
Amaneció en la playa,
Un bote viejo.
Con arena, se mira
La banda de sus bateleros,
Y en la quilla verdosos
Calafateos.
Bote triste, yacente,
Por los moluscos horadado;
Ha venido de ignotos
Muelles amargos.
Apareció en la bruma
Y en la armonía de la aurora;
Trajo de los rompientes
Doradas conchas.
A sus bancos remeros,
A sus amarillentas sogas,
Viene los cormoranes
Y las gaviotas.
Los pintorescos niños,
Cuando dormita la marea
Lo llenan de cordajes
Y de banderas.
Los novios, e la tarde,
En su alta quilla se recuestan;
Y a los vientos marinos,
De amor se besan.
Mas el bote ruinoso
De las arenas del estuario,
Ansía los distantes
Muelles dorados.
Y en la profunda noche,
En fino tumbo abrillantado,
Partió el bote muriente
A los botes lejanos.

O DUQUE

Hoje se casa o Duque Nuez;
vem o chantre, vem o juiz
e com pendões escarlate
florida cavalgada;
à uma, às duas, às dez;
que se casa o Duque primor
com a filha de Clavo de Olor.
Ali estão, com peles de bisonte,
os cavalos de Lobo del Monte,
e com cenho triunfante,
Galo centrino, Rodolfo montante.
E na capital está a bela,
mas não veio o Duque atrás dela;
os magnatas prostradores,
aduladores
ao solo o penacho inclinam;
os curvados, os bissestos
dão seus gestos, seus gestos, seus gestos;
e a turba empedernida
esbaforida, esbaforida, esbaforida.
E nos pórticos e nos espaços
olha a noiva com ardor;….
são seus olhos dois topázios
de brilhante cor.
E fazem grosseiros acenões,
nobres vermelhos como escorpiões;
concentrando seus respiros
grita o mais hercúleo desses piros:
– Quem ao grande Duque entretém?…,
bah, o grande cortejo se irrita!…
Mas o Duque não vem;…
Foi comido por Paquita.
EL DUQUE

Hoy se casa el Duque Nuez;
viene el chantre, viene el juez
y con pendones escarlata
florida cabalgata;
a la una, a las dos, a las diez;
que se casa el Duque primor
con la hija de Clavo de Olor.
Allí están, con pieles de bisonte,
los caballos de Lobo del Monte,
y con ceño triunfante,
Galo centrino, Rodolfo montante.
Y en la capital está la bella,
mas no ha venido el Duque tras ella;
los magnates postradores,
aduladores
al suelo el penacho inclinan;
los corvados, los bisiestos
dan sus gestos, sus gestos, sus gestos;
y la turba melenuda
estornuda, estornuda, estornuda.
Y a los pórticos y a los espacios
mira la novia con ardor;….
son sus ojos dos topacios
de brillor.
Y hacen fieros ademanes,
nobles rojos como alacranes;
concentrando sus resuellos
grita el más hercúleo de ellos:
– ¿Quién al gran Dueque entretiene?…,
¡ya el gran cortejo se irrita!…
Pero el Duque no viene;…
Se lo ha comido Paquita.

BRASÃO

A mocinha que doces amores sonha
a persegue o Duque dos falcões;
e se não mentem as fábulas da dona,
se aproximam douradas tribulações.

Na vermelha almenara canta o autilho
que com adornada beldade se assoma;
e tem incensado o doce carrilho ,
murmura e treme como a pomba.

A urraca se oculta. A mocinha mira
com seus olhos acastanhados a fresta,
já com alento de rosa suspira,
já o anel o retira lastimosa mas presta.

Vem a rainha manca e os nobres;
rápido o Duque busca alheamento;
porém as aias dos flancos dobles,
a aurora predizem do sofrimento.

BLASÓN

A niña que dulces amores sueña
la persigue el Duque de los halcones;
y si no mienten las fablas de la dueña,
se acercan doradas tribulaciones.

En la roja almena canta el autillo
y con miriñaque beldad se asoma;
y tiene encendido el dulce carrillo,
murmura y tiembla como la paloma.

La urraca se oculta. La niña mira
con sus ojos zarcones la aspillera,
ya con aliento de rosa suspira,
ya el cintillo descoge lastimera.

Vienen la coja reina y los nobles;
raudo el Duque procura alejamiento;
pero las ayas de los fustes dobles,
la aurora predicen del sufrimiento.