Travestimentos eletivos

Fantasias Eletivas Schroedercopi caracopi tesecopi 7 letras

“Nada escapa ao controle dos recepcionistas de hotéis. Eles sabem exatamente o que você vai fazer, conhecem seu tipo, sabem o quanto você é idiota, que tipo de turismo você veio fazer, pois todo turismo tem um fim, e eles são o meio”. Esse trecho é do novo romance de Carlos Henrique Schroeder, “As fantasias eletivas”, que se passa num hotel de Camboriú. Cidade balneária quase fantasma fora das temporadas de verão, ela, quando o sol arde, triplica sua população com gente vinda do interior do Paraná e do Rio Grande do Sul, do Paraguai e da Argentina, mas também de muitos recantos de desavisados atraídos pelas agências de turismo que vendem essa cidade catarinense como “miniatura da cidade maravilhosa”. Não à toa, pois ela copia o Rio com sua também Avenida Atlântica, um Cristo num morro, um bondinho e a facilidade do acesso tanto a frutos do mar quanto a churrasco em apenas 50 km2 de área banhada pelo mar. Tendo trabalhado num hotel nessa cidade, Schroeder conheceu por dentro a rotina de entra e sai de estranhos e suas fantasias de diversão e passagem do tempo longe das amarras de suas moradias. Essa população, porém, não habita o romance, que é centrado justamente no recepcionista do hotel, que a tudo vê e percebe em sua solidão e seus problemas existenciais e de relacionamento. Em seu entorno outros funcionários agem à vontade de forma mal disfarçada atendendo os clientes em pedidos de serviços que não são encontráveis no cardápio normal. Engolfado no tédio da baixa temporada, esse porteiro da noite acaba conhecendo um travesti argentino que o assedia para que ofereça seu álbum de fotos aos clientes, de modo que possa fazer seu michê. A relação entre ambos começa conflituosa, uma vez que o porteiro do hotel, por questões morais, não tem interesse nesse tipo de serviço. O travesti insiste e um diálogo vai se tecendo entre esses dois notívagos e eis que sob as plumas e os paetês descobrimos a sugerida “fantasia eletiva” do livro: o michê é Copi, um escritor argentino que tenta sobreviver como um travesti de si mesmo nessa Camboriú de fim de carreira. É possível dizer isso porque, na verdade, Copi se notabilizou em Paris escrevendo comédias para o teatro e romances impagáveis povoados de travestis com os quais acontece de tudo, desde desaparecer, morrer e reaparecer, trocar várias vezes de sexo, até conviver com animais e coisas com a naturalidade possível da suspensão total do sentido de real, como um sonho latino-americano. Copi é pouquíssimo conhecido no Brasil. Dele há apenas 3 peças publicadas num volume da editora 7Letras, na Coleção Dramaturgia (2007) – “Eva Perón”; “Loretta Strong”; e “A geladeira”, além de uma tese de doutoramento, de Renata Pimentel, publicada pela Editora Confraria do Vento (2011) – “Copi – transgressão e escrita transformista”. Um dos melhores livros, porém, aqui não chegou. Trata-se do romance “Baile das loucas”, “de travestis, porque me divirto criando situações entre eles”, disse Copi que pretendeu escrever um romance policial em que há cópias de Marilyn Monroe, vários crimes e dois culpados, “porém nada de polícia (é algo que não suporto nos romances policiais) e portanto, tampouco castigo”, diz Copi. Schroeder, tendo Copi como sua “fantasia eletiva”, recria à vontade um livro de “coisas” dele, assim como de poemas, transformando o escritor em personagem, jogando com os travestimentos que a escrita ficcional permite quando se entra pela biblioteca e se passa a habitá-la como um hotel povoado de tipos estranhos, tudo para que todo Copi que se apresente seja pouco. [ademir demarchi]

Copi

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