Revista Medusa e Pagu

Está disponível para ler on line a coleção da revista Medusa, uma das melhores revistas do país, publicada de 1998 a 2000 em Curitiba por Ricardo Corona e Eliana Borges.

http://www.editoramedusa.com.br/Medusa.html

Na edição 5 saiu publicado um pequeno ensaio meu sobre Pagu, que transcrevo abaixo.

Medusa5

Viu?Viu?Viu?, de Patrícia Galvão

            Um olhar sobre os primórdios da TV no Brasil

                                                                                               por Ademir Demarchi

             Patrícia Galvão, a Pagu, “Musa-mártir antropófaga” do modernismo, como a definiu Décio Pignatari, foi escritora de múltiplos interesses. Romancista, poeta, crítica de teatro, de literatura, jornalista e militante comunista, teve o registro desse seu variado interesse registado no estudo Pagu Vida-Obra que o poeta Augusto de Campos publicou em 1982 pela editora Brasiliense. Boa parte de sua atividade de escritora foi estampada nas páginas de A Tribuna, de Santos-SP, onde trabalhou até o fim de sua vida, em 12/12/62, ao lado do companheiro e também escritor Geraldo Ferraz.

Além dos textos dedicados ao teatro, assinados Patrícia Galvão e à literatura, assinados Mara Lobo e que foram relacionados porAugusto de Campos no livro mencionado, Pagu publicou emA Tribuna uma outracoluna, dedicada à entãonascentetelevisãobrasileira.

Iniciada a partir de 2/6/56 e intitulada sugestivamente de Viu?Viu?Viu?, essa coluna saía diariamente, com eventuais falhas, somando uma média de 25 publicações mensais  – leve-se em conta que A Tribuna não saía às segundas-feiras.   Viu?Viu?Viu? durou até o fim da vida de Pagu, tendo sido ocasionalmente substituída por um interino que assim se identificou, em lugar da marca registrada da coluna que era Gim, o pseudônimo assumido por Pagu parafalarsobre a programação de televisão.

Pagu

A publicação iniciou-se 6 anos após a inauguração da primeira emissora de televisão na América do Sul, a PRF-3, TV Tupi-Difusora, Canal 3, em São Paulo, que se constituiu no mais ambicioso empreendimento do grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Um ano após a inauguração da emissora estima-se que existiam 7 mil aparelhos receptores entre Rio e São Paulo. Esse número multiplicou-se rapidamente e, cinco anos após, época em que Pagu iniciou a publicação de sua coluna sobre tevê, estima-se que existiam 200 mil aparelhos receptores em todo o país.[1]

Gim, esse personagem de nome ambíguo criado por Pagu, aparecia como sendo do sexo masculino, muito embora se possa encontrar uma ou outra edição em que o personagem trai-se pelos pronomes deixando identificar atrás da coluna uma autoria feminina – ou efeminada. A relevância dessa ambigüidade encontra eco ainda na própria linguagem criada por Pagu, que procurou dirigir-se ao leitor num tom de intimidade – já presente desde o título Viu?Viu?Viu? – próprio dos mexericos, transmitindo uma familiaridade com a televisão e seus bastidores, ao mesmo tempo em que comentava aspectos de algum programa por seu caráter cultural. Esse tom de intimidade com o telespectador/leitor expressa também o comportamento típico à época com relação à tevê, que estimulava a reunião de pessoas para assistir programas de forma comunitária e até mesmo motivava essas pessoas a procurar uma aproximação com os atores, telefonando-lhes, na sede da tevê, de onde se transmitia o espetáculo, para parabenizar os que participaram do programa que se acabara de assistir.[2]

Assim, embora muitas vezes tenha-se retido em banalidades como a intimidade do casal Lolita/Airton Rodrigues e seu programa Almoço com as estrelas, pela novidade que teria o telespectador ao poder “almoçar” em companhia de personalidades do mundo artístico ou em evidência, o olhar de Gim caracterizou-se pelo interesse insistente em programas de aspecto erudito como a transmissão de espetáculos direto dos teatros onde se passavam. Assim, comentava da execução de sinfonias de Mendelsson acompanhadas de corpo de balé até a Ópera de Pequim que visitava o país, direto do teatro Municipal de São Paulo. Por essa mesma ótica um dos programas prediletos de Gim, comentado semanalmente pelos assuntos que abordava e pelo interesse que despertava, era “O céu é o limite”, onde um candidato submetia-se a um teste intensivo de conhecimentos sobre assuntos como a história da Grécia, por exemplo, travando uma luta renhida de pergunta/resposta com a direção do programa a ponto de seduzir os “tele-ouvintes”.

Entretanto, a formação literária e teatral de Pagu é que deu o tom mais representativo da coluna, na medida em que a indicação de programas da tevê definia-se em sua maior parte pela raiz literária deles, adaptados que eram de livros e peças de teatro. Assim, os interesses da escritora encontraram espaço aberto no então recente veículo de comunicação, uma vez que a televisão brasileira em seus primórdios sustentou sua programação com peças teatrais e atores advindos do teatro e do rádio, quando, diferentemente de hoje, não tinha suporte para ter repertório próprio. Um dos espaços privilegiados para veiculação dessa programação de caráter erudito era o TV de Vanguarda, aparentemente um dos preferidos de Pagu, que veiculava as encenações de textos de Pirandello, Brecht, Goethe ou Shakespeare.

O olhar de Pagu é também sintomático da mudança de comportamento intelectual na medida em que a escritora procura realizar uma ponte entre o mundo erudito literário e o novo veículo de comunicação de massas que, embora sustentando-se naquele mundo, objetivava o grande público. Essa tensão entre a cultura erudita e a massificação é passível de ser identificada no papel desempenhado pela escritora que destina parte de seu tempo à redação de uma coluna como Viu?Viu?Viu?, de pequenas notas descompromissadas e oculta sob um pseudônimo. O compromisso militante, uma de suas preocupações, estava reservado aos outros espaços do jornal, como a coluna sobre teatro, onde assinava o próprio nome, assim como desdobrava-se em Mara Lobo para tratar eruditamente de literatura.  Mas se Viu?Viu?Viu? registra um apego maior à banalidade uma vez que Gim assume a tevê com prazer e curiosidade pela comodidade que prometia, a escritora não deixa de, em dados momentos, refletir sobre o que poderia vir a ser a televisão: “Embora as cadeias globais sejam ainda um sonho do futuro, o filme televisionado auxilia a transformar os nossos lares em observatórios mundiais. De nosso acolhedor divan da sala, ou da cadeirinha colocada nas noites frias perto do aquecedor ou do fogo, poderemos observar uma expedição na Antárdida ou assistir a um novo casamento sensacional de novos príncipes, um episódio de guerra de verdade com toda a segurança ou um autêntico quebra-quebra.” (A Tribuna, 31/5/56, p.2).

Pagu e Geraldo Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão

Premonitória, de fato hoje podemos assistir episódios de guerra de verdade como ocorreu com a Guerra do Golfo e com a Guerra da Bósnia; podemos também assistir até autênticos quebra-quebras, com nossos lares transformados em observatórios do que acontece em torno de nós, no mundo. Pagu vislumbrou na tevê também a possibilidade e o comodismo do acesso à cultura e, mesmo tratando de banalidades, conseguiu sabiamente criar uma coluna de leitura agradável que, em meio à vacuidade própria desse meio de comunicação, encontrava programas que pudessem informar ou dilapidar a sensibilidade dos telespectadores. De nossa parte, temos à disposição as tais redes televisivas, mas não podemos afirmar tão categoricamente que estamos melhor servidos que Pagu ou que a oferta de boa cultura tenha superado a velha PRF-3, onde se via Pirandello, Brecht, Goethe ou Shakespeare…

Ademir Demarchi, editor de Babel – Revista de Poesia, Tradução e Crítica, é escritor

Este ensaio foi originalmente publicado na revista Medusa n.º 2 [Curitiba: dez/jan-98/99]


[1] Cf. COSTA, Alcir Henrique da; SIMÕES, Inimá Ferreira [e] KEHL, Maria Rita. Um país no ar – História da TV brasileira em 3 canais. São Paulo: Brasiliense, 1986.

[2] “De início, o televisor é uma atração para a vizinhança, um símbolo de prestígio e diferenciação social. A platéia seleta que se reúne à volta do aparelho age à altura. Frequentemente – é o que contam antigos funcionários da Tupi-, ao terminar a transmissão de um teleteatro, o telespectador discava para parabenizar o desempenho dos intérpretes. Uma adaptação possível do comparecimento aos camarins após o espetáculo…” SIMÕES, Inimá F., “TV à Chateaubriand”, In: Um país no ar – História da TV brasileira em 3 canais, p.26.

0 resposta para “Revista Medusa e Pagu”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *