Oroboro e Sossélla

Está disponível para leitura on line a revista Oroboro, publicada de 2004 a 2006 em Curitiba por Ricardo Corona e Eliana Borges.

http://www.editoramedusa.com.br/Oroboro.html

Na edição 8 publiquei um ensaio sobre Sérgio Rubens Sossélla, com uma antologia de poemas e de sua novela A Nova Holanda, que transcrevo abaixo.

Oroboro8

ESCREVER PARA MORRER

por Ademir Demarchi

 Sérgio Rubens Sossélla nasceu em Curitiba em 27/2/1942 e morreu em 18/11/2003 em Paranavaí, cidade do interior do Paraná que escolheu para viver e encerrar a profissão de juiz, depois de ter trabalhado em duas outras pequenas cidades. Avesso à hipocrisia e convenções do meio jurídico, não se interessou em fazer carreira e voltar à capital, preferindo ser escritor e construir uma biblioteca, anexa à sua casa, para onde ia e passava o dia todo lendo e escrevendo, meses sem sair desse ambiente.

Chegou a publicar mais de 300 títulos de livros, concebidos artesanalmente do conteúdo à capa e depois impressos com cerca de 10 a 30 exemplares, parte dos quais enviava a alguns poucos amigos, considerando-os publicados, segundo um uso comum no mundo jurídico, “tornar público”, meio do qual fez parte por muito tempo, e que à literatura aplicava como uma de suas boutades. Sua obra combinava a idéia de prospecção da memória e ourivesaria e, não à toa, um título de 2000 se chama minassossélla, como aparece na capa amarela, ou simplesmente mina, internamente, com um poema/epígrafe de Valéry que lembra ao desavisado leitor que “um diamante vive mais/ do que uma capital/ e uma civilização”, sugerindo o que seria para ele o poema.

O cinema era para Sossélla uma fonte de imaginação inestimável, por isso o título acima, “Viver para morrer”, certamente cairia no seu agrado, quer por assemelhar-se a um filme, quer pela característica que o aproximaria de uma máxima como as que estão em vários dos seus livros – Nunca mais outra vez, por exemplo, usurpado de um filme de James Bond para ser o título de um livro bem o demonstra, ilustrando com eficiëncia esse duplo viés de ser um referencial fílmico e uma frase lapidar. Mas há também nesse título uma outra característica que sinaliza mais uma predileção de Sossélla, a de admirar vidas exemplares, engrandecidas em sua tragicidade, tal como era a de Van Gogh, que, mais que pintou quadros sem tê-los vendido, viveu-os. Um ótimo exemplo disso é o poema “chorei muito van gogh/ e choro sempre ao lembrar/ o exemplo de sua vida/ a dignidade de sua morte/ heróicas” que para Sossélla assinalaria um valor fundamental para o verdadeiro escritor ou artista, aquele de entregar-se à sua atividade de forma vital, que ele simbolicamente repetiu quando decidiu se fixar e viver com a mulher, Rosa Maria e o filho Sérgio Augusto em Paranavaí, na Avenida Martin Luther King, onde construiu uma casa com um andar e um anexo que transformou em biblioteca.

Com essa decisão de isolar-se para escrever é possível dizer que Sossélla buscava aquilo que foi evidente em outro escritor paradigmático, Kafka, que disse: “Não me afasto dos homens para viver em paz mas para poder morrer em paz”. Não se trata de um mero gesto teatral ou de uma preparação para um “suicídio” premeditado, mas de uma clareza filosófica, estética, de que o distanciamento se impõe pela necessidade da escrita, pela necessidade de entregar-se a uma experiência vital de pesquisa estética que tem a morte como referencial maior porque ela é o extremo, o encontro com a indeterminação, que é o que potencializa a arte. “O escritor é então aquele que escreve para morrer e é aquele que recebe o seu poder de escrever de uma relação antecipada com a morte”, nos diz Blanchot sobre Kafka, ressaltando que “a própria obra é uma experiência da morte da qual parece ser imprescindível dispor previamente a fim de se chegar à obra e, pela obra, à morte”.

Sossélla

Fragmentação como estética

A obra de Sossélla é caracterizada pela fragmentação – abra-se um de seus livros e se verá no escolhido uma frase reinando na página: “tudo é pedaços” (de parágrafos, fragmentos, 2000). Essa frase, que se constitui por si mesma num poema se a tomarmos como um epigrama ou máxima, pode também ser vista como um verso de um poema que se forma se somarmos todos os versos do livro, livro que por sua vez se soma a outros e com eles interage numa espécie de conexão determinada pela opção estética dessa escrita que se baseia na fragmentação.

Assim, são de pequenos parágrafos e fragmentos, de observações, de diálogos, de falas imaginadas de filmes, imitadas ou inventadas, de cenas, gibis, livros, obras de artistas como Van Gogh ou Hyeronymus Bosch, amigos, cidades, trens, poemas… que se formam esses livros, remarcados com um refinado senso de humor, logo familiar para quem entra com todos os sentidos nesse seu mundo literário peculiar.

A chave de compreensão dessa poética, portanto, é a mesma que foi uma tônica no século que se findou: o todo somente pode ser visto ou compreendido a partir de uma soma de fragmentos. Seus textos, assim, como que tirados de um depósito – a memória – como a Xanadu cumulativa e em suspensão de Cidadão Kane, que se somam inesgotavelmente como que unidos em dobradiças, são articulados uns com os outros e vão se desdobrando, articulando-se com outros livros, formando um mosaico, uma constelação de fragmentos que se somam compondo um sentido possível, ou vários.

Não se trata de um capricho, mas sim, certamente, do investimento numa certeza que orientou sua prática, de que sua obra se compunha em processo e sua força-motriz se dá com e através da inter-relação desses poemas curtos e fragmentários, compondo uma constelação que tem como fundo estrutural simbólico a memória sentimental de um tempo em que viveu em Curitiba e foi feliz assistindo filmes, vendo exposições, cultivando amigos e a leitura, experiência logo sobreposta com as impressões da vida no interior e o definitivo confinamento na própria biblioteca.

O universo literário que Sossélla  criou é, assim, como uma espécie de Rimini felliniana, uma amarcord literária onde perambulam ou habitam na neblina do texto distraidamente objetos,m ote atores, atrizes e  atores, atrizes e amigos transformados em personagens, em que ele dá a entender que ele mesmo está nas pradarias e é o cowboy ou o xerife… Ou seja, sua escrita se configura como o universo típico de um sonho, ou de uma somatória deles, que inclusive usou como mecanismo para conceber e escrever seu único romance, A Nova Holanda, do qual se selecionou para Oroboro alguns de seus fragmentos, que são como microcontos, diferenciando-se, por isso, de sua característica poética, da qual também se publica alguns exemplos especialmente selecionados.

Antologia de poemas de Sossélla publicados na Oroboro

de não norarei amanhã sossélla, 1985

a vozque disse

no princípio era o verbo

transferiu-se do gênesis

e me espera no apocalipse

(minhas mãos vazias que o digam)

* * *

de campo de concentração sossélla, 2001

hoje, voltei a mesentir

o xerife da cidade fantasma da minha infância

***

crianças

doces anjos da guarda

e eu era mocinho, paralítico

fiquei mudo e surdo e cego

havia festas no campo de concentração

no  caminho pra casa, inclinado

a cadeira de rodas ia sozinha

***

ao abrir a geladeira naquele dia

depois de alguns anos eu veria a cena

no encouraçado potemkin

***

fiz a longaviagem de volta

nem sei quantas vezes

e de todo o meu passado

restaram somente alguns meses

***

chiqueiro

a um metro de distância da janela do meu dormitório

com deus me deito, com deus

e não esquecer de amar diariamente o pai e a mãe

façam eles o que fizerem

que sorte a do porco:

levou um tiro no ouvido

***

a bonequinha de pano.

o quanto envelheceu.

***

você mais aprende sobre pedras

recebendo-as

***

ela entrou na minhavida

por fora

está saindo sem demora

por dentro.

***

se eu escrevesse poemas na minhainfância

iriam me mostrar a conta da luz elétrica

***

quando chego à época de menino

é sempre de noite

ou depois que voltei da escola

***

excitando a mimmesmo

descobri a américa num canto de cerca

***

de casa

eu fui ao portão.

cheguei ao novo mundo.

***

numa última análise

eis todos os meus poemas: carrinhos de madeira

principalmente.

ou eu num caixão sob a marquise.

e choverá, deliciosamente.

***

fiquei com o prego da porta da minhacasa

na mão, ingmar bergman

***

de horizontal vertical sossélla, 2000

judiação da madeira também

onde cristo jesus esteve

e mais os gritos dos cravos

deus do céu

***

de sérgio rubens sossélla na terra de ninguém, 2001

na terra de ninguém

quem lá se encontra –

– se acha

***

na terra de ninguém

se reza e amém amém

***

na terra de ninguém

a música branca é negra

a música negra é branca

e uma carrada de etc.

***

de puta sorte, poesia, 2001

agora pouco

um mosquito preto chegou de frente

mas passou de lado

bem próximo

o meu olho esquerdo desconfiado

* * *

de sossélla escrita fina, 2000

a estrada

começa na minha casa

e não tem fim

* * *

abelhas se aninharam

na barba de jesus¿favo

ou sombra?

* * *

caneta à prova d’água

me assusto e acordo

* * *

de hieronymus bosch depois, 2001

tchecov.

muitos vizinhos de casa são personagens seus.

tive que procurar pelos meus.

* * *

de poemas: 50 sossélla, 2000

no dia em que eu colocar u’a máscara

todos me reconhecerão, na hora

* * *

Seleção de A NOVA HOLANDA, de Sérgio Rubens Sossélla,

para OROBORO

 

2   No

granderincão do diabo, Ho Nai Property Disposal Area, ocupando uma superfície de 450 acres, a 36 quilômetros ao norte de Saigon, os americanos enterraram, comsuas recordações, facas de cortarpão, trombones, fontes luminosas, redes de pingue-pongue, máquinas de lavar, copos de papel, torneiras, copiadoras, equipamentoparajogo de rugby, mastros de bandeiras, roupas insersíveis, fuzis e metralhadoras, quepes e bolsas, colchões, tanques e caminhões, jipes, carros de combate, cadeiras, ferroselétricos, geladeiras, latas de cerveja, quadras de esporte, refrigerantes, saunas, piscinas olímpicas, crianças, petecas, membrosartificiais, orgulho, desfolhantesquímicos, prostitutas, excrementoesverdeado, 1.468.000 mortos, vômito e esperma. Desse esgoto de Wall Street nasceram moscas e flores de plástico.

4   Encontro

minha avó paterna enlutada. Ela cavalga, aos prantos, gemendo e pedindo perdão. O animalquemonta é de um negrume inteiro. Ela cai. Corro para ajudá-la, e já está sobre o cavalo. E vai ao chão, e sobe, até a próximaqueda. Nada posso fazeremseuauxílio. Vovó é prisioneira dessa situação, cavalo e cavaleiro, tropicantes. Espécie monstruosa de centauro, se derrubando e elepróprio se galopando.

6   Anunciou-se

6   Anunciou-se

pêssego, e serviram a sobremesa. Devagar, queninguém é de ferro, pensei. Masessesricaços aprontam cada uma! Eu tentava cortar no prato de porcelanaumfetofóssil de cavalo. Notável, afora o tamanho aproximado ao do fruto e a classificação científicaquelhe ornava – “Foetus Hyracotherion”; ant. “Foetus Eohippus” –, era o estar envolvido porum líqüido amniótico muitosaboroso.

7   Na

metade da quadra, notou o homenzinho rente ao meio-fio, quase na esquina. O estranho desenhava gestos no espaçocom as mãos: tecia uma redeimaginária. Segurando numa das pontas, a agulhainvisível na outramão trançava os fios do espanto, pespontando. A cada enredilhado correspondia umpuxão, paramelhorfixar o entrelaçamento. Uma laçada, o empuxo, e umpasso à frente, atéchegar na outraextremidade, espetada na haste do muro. Uma laçada, o empuxão, e meiavolta. A aranhadrogada e louca dançava, construindo a teiaperfeita. Suspendeu a redecomdelicadeza à altura da cabeça, e passou porbaixo.

15 Era

intolerável. Resolveu pôrfim a uma obsessão. Com o melhoremmatéria de mulheres arrancadas de revistas, rumou para o pátio e riscou o fósforo na história ilustrada das suasmasturbações. Emminutos, décadas de fixações eróticas ardiam estilos numa silente convulsão. O fogo esvaziava os olharesmais provocantes, ondulando coxas, meias e seioscomfragmentações de calcinhasemlínguas flamantes. Mortas agora, ou esquecidas anciãs, oujovens deformadas pelaobesidade, desprezadas portodos os fotógrafos, viam, passivamente, suas tentadoras bundas estourando nas chamas. E o vento unia e desfolhava essescorpos, remexendo tesões carbonizados. As labaredas de umânus colavam-se emespelhos, camas e lençóis sobrecarregados de segredos. Comumdesabafo, reparou no meio das cinzas uma últimaboca – ansiosa, louca e retorcida – perseguindo umpênis incinerado.

49 Todas

as tardes a menininha erapresente no tanque de lavarroupa. Curioso, porqueela recolhia gatinhos no abandono, fui espiar no vão da cerca. Paraquenão sofressem a fome e a doença nas ruas, ela os afagava, afogando-os comamor e carinho.

55 Surpreenderam

a mãezinha, no velório, colocando umpacotecombolachas no bolso da vestidura do seumenino.

0 resposta para “Oroboro e Sossélla”

  1. Nos dez anos da morte andei relendo a pilha de livros dele, da época em que ele me enviou um monte e tive a sorte de achar coletâneas da época mais importante dele, como o Para a Biblioteca de Alexandria. Depois da poesia ter sido assolada pelo reacionarismo e a verborragia nos anos 90 e 2000, é que vejo hoje o raro valor de um Sossella. Talvez ele tenha caído no “sosselismo” depois, e chama a atenção a publicação obsessiva de folhetos e pequenos livros depois que ele teria “enfim, voltado à calmaria da infância”. E pelas amostras que obtive, o auge dele foi mesmo até 1990, quando saíram boas coletâneas e os livros e livretos engrossaram.Vista a poesia que se fazia Paraná, vemos que poetas como ele e tantos outros (Leminski, Helana Kolody, Alice e menos votados) se beneficiaram da brevidade, e mesmo o haicai jamais “foi uma praga e um problema do estado”, como dito em outro link em que entrei na busca. O haicai foi cultivado no Brasil todo, aconteceram séries por várias editoras paulistas e mineiras. O Sossella foi marcado pelos haicais, satíricos principalmente, como Millôr, Paulo Mendes Campos e Leminski, e isso fez parte. A grande praga do Paraná na verdade é a inveja e a maledicência, fortes na área lítero-jornalística, principalmente para quem não é das rodas. Eu cheguei a escrever sobre o Sossella, só desprezaram, e depois ficaram loucos quando o Miguel Sanches o colocou nas nuvens. Gente pequena, bichos do Paraná. Por isso muitos se retiram
    e saem de cena.

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